22.8.16

OS JOGOS OLÍMPICOS SÃO UMA METÁFORA DA HUMANIDADE HUMANIZADA

Por LEONARDO BOFF - Via blog do autor -


As Olimpíadas de 2016 deixarão um legado inesquecível para a população carioca por causa da implantação de uma imensa infraestrutura de arenas, estádios, novas avenidas e túneis. Tradicionalmente, a abertura e o encerramento constituem ocasiões de grandes celebrações, nas quais o país-hóspede tenta mostrar o melhor de sua arte e singularidade. A abertura foi de um esplendor inigualável. O ponto alto foi o desfile das delegações de 206 países, número maior que os representados na ONU, que são 193. Cada delegação desfilou em trajes típicos.

Sabemos que em todas as relações sociais subjazem interesses de poder. Nos Jogos Olímpicos, se existiram, ficaram praticamente invisíveis. Predominou o espírito esportivo e olímpico acima de diferenças nacionais, ideológicas e religiosas. Até um grupo de refugiados desfilou.

Talvez esse evento seja um dos poucos espaços nos quais a humanidade se encontra consigo mesma, como única família, antecipando uma humanização sempre buscada, mas nunca sustentada definitivamente, porque não avançamos ainda em consciência de que somos uma espécie, a humana, e que temos um único destino comum junto com a Casa Comum, a Terra.

Esta seja talvez a mensagem simbólica mais importante que um evento como este envia para todos. Para além dos conflitos, diferenças e problemas, podemos viver antecipadamente e, por um momento, a humanidade que se humanizou e encontrou seu ritmo em consonância com o ritmo do próprio universo.

Os Jogos Olímpicos nos dão o ensejo de refletirmos sobre a importância antropológica e social do jogo. Não penso no jogo que virou profissão e grande comércio internacional. O jogo, como dimensão humana, se revela melhor nos meios populares, nas peladas de rua ou na praia, em algum espaço gramado ou arenoso. Esse tipo de jogo não tem finalidade prática nenhuma. Em si mesmo carrega um profundo sentido como expressão de alegria de divertir-se juntos.

Nas Olimpíadas impera outra lógica, diferente daquela cotidiana de nossa cultura capitalista, cujo eixo articulador é a competição excludente: o mais forte triunfa e, no mercado, se puder, engole seu concorrente. Aqui há competição, mas ela é includente, pois todos participam. A competição é para o melhor, apreciando e respeitando as qualidades e virtuosidades do outro.

A tradição cristã desenvolveu toda uma reflexão sobre o significado transcendente do jogo. Sobre ela quero me concentrar um pouco. As duas igrejas irmãs, a latina e a grega, se referem ao “Deus ludens”, ao “homo ludens” e até à “ecclesia ludens” (o Deus, o homem e a igreja lúdicos).

Eles viam a criação como um grande jogo do Deus lúdico: para um lado, jogou as estrelas, para outro, o sol, mais abaixo jogou os planetas e, com carinho, jogou a Terra, equidistante do Sol, para que pudesse ter vida. A criação expressa a alegria transbordante de Deus, uma espécie de teatro no qual todos os seres desfilam e mostram sua beleza. Falava-se, então, da criação como um “theatrum gloriae Dei” (um teatro da glória de Deus).

Não precisamos temer. O que nos tolhe a liberdade e a criatividade é o medo. O oposto à fé não é tanto o ateísmo, mas o medo, especialmente o medo da solidão. Ter fé, mais que aderir a um feixe de verdades, é poder dizer, na esteira de Nietzsche, “sim e amém a toda a realidade”. Em seu profundo, ela não é traiçoeira e má, mas boa e bela, alegre, acolhedora. Alegrar-se por participar dela o expressamos pelo jogo e, de forma universal, pelos Jogos Olímpicos.