23.10.16

O LABIRINTO POLÍTICO SUSCITADO PELO SEGUNDO TURNO NO RIO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -

Preparado para votar em Jandira, anulei meu voto sem querer no primeiro turno das eleições municipais no Rio. Ato falho inconsciente. Estava tão desinteressado do resultado das eleições, com candidatos tão insatisfatórios, que acabei apertando a tecla do prefeito antes do vereador (ou vice-versa). Quando me dei conta, o voto estava anulado. Agora vou votar de novo, com mais atenção. Meus amigos todos, em geral de esquerda, estão com Freixo. Mas um alto dirigente de um partido que o apoia, falando dos bastidores da campanha, disse simplesmente que Freixo não dá a menor atenção aos aliados de sua base. Sequer os ouve.

Isso acendeu uma luz vermelha em minha mente. O fato é que Freixo não tem programa. Sua principal credencial como candidato a prefeito foi ter sido presidente de CPI da Alerj, na área de segurança, e ter prendido milhares de bandidos, o que não tem nada a ver com Prefeitura. A ideia de converter guarda municipal em polícia comum é uma besteira. Seria melhor incorporá-la à Polícia Militar, e criar outras guardas municipais, indefinidamente, porque alguém tem que cumprir certas ações de ajuda à população fora de questões criminais. As promessas na área de saúde e de habitação formam as frivolidades eleitorais de sempre.

Minha relação com Crivella vem de longe. Ajudei-o a fundar o PRB junto com o nosso grande líder, José Alencar, em 1986. A criação do partido foi uma decorrência do envolvimento do Partido Liberal no mensalão. Crivella e Alencar eram próceres do Partido Liberal, mas totalmente isentos de qualquer envolvimento em irregularidades. Saíram, por isso, do PL, e ficaram sem partido. Mas aproximavam-se as eleições presidenciais e Lula insistia em continuar com Alencar como Vice. Desconfiado como era, Alencar tinha grande dificuldade em entrar num partido existente para garantir a legenda de vice. Temia ser achacado.

Foi aí que Crivella surgiu com uma proposta. Alguns líderes políticos ligados à Universal haviam recolhido assinaturas suficientes para criar um partido político. O Senador propôs a Alencar substituir o nome do partido e usá-lo como legenda para coligar-se ao PT. Achei a ideia ótima. Evitava o oportunismo certo de partidos existentes. Nas vésperas do prazo de filiação, escrevi uma carta de quatro laudas para Alencar sugerindo a ele que aceitasse a ideia da criação do partido. Não sei se foi por minha influência, mas aquela saída o agradou, de preferência a ir para as asas inconfiáveis do PMDB ou PDT, entre outros.

A condição que colocamos, Alencar e eu, para participarmos da criação do partido (PRB) era que funcionasse como uma entidade rigorosamente laica. Ou seja, não poderia ser um partido de igreja. Claro, isso era uma ilusão, pois todos os organizadores dele estavam direta ou indiretamente ligados à Universal. Isso foi agravado pelo fato de que Raphael de Almeida Magalhães, que eu pensara que tinha sido convencido a aceitar a presidência do partido, e que certamente lhe teria garantido uma característica laica, acabou desistindo por pressão familiar. Fiquei incomodado com a situação, mas ainda na expectativa de uma saída.

Em 2010 fui candidato a vice governador na chapa de Crivella, por falta de um partido associado que disputasse a indicação. Nas eleições seguintes continuei apoiando Crivella, mas ainda incomodado com o caráter predominantemente religioso de seu partido. Em determinado momento, tornou-se claro que o PRB, com comando firme da Universal, jamais se tornaria um partido laico. Em consequência, me desliguei formalmente dele. Isso, contudo, não significa que Crivella seja um sectário religioso. Sua experiência no Ministério da Pesca e na política em geral indica até uma certa prevenção contra a presença predominante entre seus auxiliares de evangélicos carimbados, uma espécie de discriminação ao contrário.

Agora temos o segundo turno no Rio. A maior mancha na carreira política de Crivella, para os progressistas, é ter votado, como ex-ministro de Dilma, pelo seu impeachment. Mas ele fez isso em razão de um cálculo político que indicava que a maioria da população estava contra Dilma. Não fosse isso e ele não teria ido para o segundo turno e obtido a vantagem que tem nas pesquisas. Em Curitiba, o candidato Maurício Requião, filho do mais aguerrido e leal defensor de Dilma contra o impeachment, chegou em terceiro lugar no primeiro turno. A culpa foi atribuída à associação pelo nome com a postura moralmente irrepreensível do pai.

Agora, temos a decisão do segundo turno no Rio. Tentemos desligar o farol de ré para vermos melhor adiante. Minhas dúvidas continuam, mas está-se formando uma certeza. Posso fazer tudo, menos votar a partir de uma manipulação da capa de “Veja”, requentando fatos irrelevantes de mais de duas décadas com o apoio aberto do Sistema Globo. Isso é demais. Globo e “Veja”, que depuseram Dilma, não podem abocanhar toda a publicidade da Prefeitura, como já faz com a do Estado e do Governo Federal, a fim de se salvar da crise de leitores e de audiência devida justamente a seu baixo e irresponsável jornalismo.

*Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.