1.11.16

O ELEITOR TAMBÉM É RESPONSÁVEL

HÉLIO DUQUE -


Em 1898, o poeta e escritor Olavo Bilac, em jornal da época, denunciava a mentira, a verdade e os eleitores: “Para ser político, é preciso antes de tudo ter força de saber mentir e transigir. Diante do eleitorado, que poderia eu dizer? A verdade? Mas o eleitorado, aceso em justa cólera, me correria à pedradas.” Alertava que o eleitor não gosta de quem fala a verdade, preferindo se refastelar na enganação. A responsabilidade da corrupção é lançada sobre o governo, os políticos e os corruptores poderosos, enquistados nos grandes e médios grupos econômicos. O assalto ao dinheiro público teria nessas três variáveis, os únicos responsáveis pela disseminação dos delitos desmoralizantes da estrutura pública. E o eleitor?

Um século depois, em 25 de outubro de 2016, em “O Globo”, o professor e diretor da Faculdade de Direito, da Fundação Getúlio Vargas-Rio, Joaquim Falcão, destacava responsabilidade do eleitor na escolha dos administradores públicos. Afirmando: “Existe quase um consenso sobre o culpado pela corrupção, pela ineficiência da administração pública, pelos déficits, pelos maus serviços públicos, pela violência. O culpado é o governo. Qualquer que seja. São os políticos. Alguns podem até ser. Mas apenas eles? Afinal, quem os coloca lá são os eleitores. Podem os eleitores lavar às mãos?”

Na origem do que afirmam Bilac e Falcão, está a ausência do debate público na política brasileira. O voto passou a ser mercadoria, manipulado pelo “marketing” gerador da arte de ludibriar, acrescido de outros dois grandes responsáveis: o dinheiro investido na compra de mandatos na escala de bilhões de reais e a fragilidade dos partidos políticos, sem doutrina e sem princípios, verdadeiros armazéns de secos e molhados. Eleitor virou rebanho. Os marqueteiros transformaram as eleições em farsa de lesa cidadania, em benefício dos eleitos para o executivo e legislativo. A ética pública foi jogada na vala comum dos valores descartáveis. Ignoram que, na Grécia, antes da era cristã, Sócrates já advertia que para construir uma casa ou um navio deveria se escolher gente competente, lançando as bases do que seria o “marketing público”, na condução da administração do Estado.

Nos dias atuais o “marketing político” defende exatamente o contrário, o Estado pode ser entregue a qualquer um. Ao eliminar o debate público, banindo a discussão dos problemas concretos que afetam no cotidiano a vida dos cidadãos e das famílias, o eleitor transforma-se em massa de manobra. A essa despolitização, em uma sociedade onde o analfabetismo funcional atinge mais da metade da população, o uso de pesquisas eleitorais opera como alavanca na captura dos votantes indecisos. No auge da sua condição de manipulador da vontade popular, o marqueteiro João Santana destacava que as campanhas políticas não devem trabalhar com a “realidade e a verdade”, mas com “símbolos e o imaginário coletivo”. Deve vender o paraíso, ancorado em fatos que sabe ser contrário à verdade. Visa imbecilizar o povo, fazendo do conformismo alienado projeto de poder. O eleitor é, a um só tempo, vítima e participante desse processo delituoso.

A opinião divulgada e publicada de maneira manipulada tem na França, um exemplo acabado: Napoleão Bonaparte, deposto no governo, foi levado preso para a ilha de Elba, no Mediterrâneo. Conseguiu fugir. A imprensa de Paris, mancheteou: “O criminoso fugiu da prisão.” Dias depois: “O Facínora desembarca na costa francesa”. Ao avançar pelo interior: “O bandido passa por Lyon”. Quando chega à capital a manchete era outra: “O Imperador chega a Paris”. O vilão fora transformado em herói, demonstrando como a opinião pública pode ser manipulada.

Nas eleições brasileiras, em todos os níveis, a suposta verdade triunfante legitima o cenário, onde a ausência do debate de políticas públicas e do pensamento da cidadania sobre o futuro, fica descartado. Ao invés da “boa nova” dos candidatos, de um tempo onde haveria leite e mel para o povo, o eleitor defronta-se com brutal e injusta realidade. Infelizmente foi vítima de um engano que ajudou a construir quando votou acreditando no nirvana, e nomeando em troca governantes despreparados para o pleno exercício do poder republicano. A “res publica” é lançada nas calendas gregas.

*Helio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.