26.11.16

POESIA: LIBIDINAGEM DAS LETRAS

MARCELO MARIO DE MELO -

Libidinagem das Letras
É grande o clamor do sexo
no país das letras nuas.
Conheci suas histórias.
Andei pelas suas ruas.
E escrevo pra que elas sejam
tanto minhas quanto suas.
Vamos conhecer de perto
essa libido letrosa
que se abre aos nossos olhos
pedindo verso e não prosa
porque não tem o tijolo
os atributos da rosa.
Foi num dia iluminado
que tive o encantamento.
Quando estava lendo um livro
e parei por um momento
meus olhos foram colhidos
por um belo movimento.
Duas letras concentradas
trocavam beijos e abraços
numa página aberta
se misturando em amassos.
E caí embevecido
na trilha dos seus compassos.
Elas viram que eu vi
e não ligaram pra isso
seguindo na sua festa
com alegria e com viço
pois amar naquele instante
era o seu compromisso.
Depois chegaram pra mim
disseram: "muito prazer!
Somos do mundo das letras
venha ele conhecer.
Embarque na nossa nuvem
E vamos nos entender".
Segui assim a viagem
com as letras namoradeiras
conhecendo seus amores
seus costumes e fronteiras
que prometi escrever
com palavras verdadeiras.
Agora chegou a hora
de cumprir o prometido
passando para o papel
tudo o que foi assistido.
Que a libido das letras
me aqueça e dê sentido.
Vou correr o alfabeto
desde o A até o Z
descrevendo muitas cenas
desse amor do ABC.
Segure a respiração.
Preste atenção ao que lê.
O A se excita e avança
abrasado e com furor
olhando a bunda do B
que remexe sem pudor
pedindo que chegue logo
e seja seu invasor.
O C todo escandaloso
mostrando sua entradinha
pulsando no abrir/fechar
tomando a cena e a rinha
puxa o D para a cama
e ficam galo e galinha.
O E se esfrega todo
alisando com os três dedos
sussurando para o F
quentes safados segredos
querendo lhe cavalgar
sem restrições e sem medos.
O G chama de gostoso
o H à sua frente
beija-o com garra e com gula
chupando e ferrando o dente
dizendo que esta noite
quer tudo bem diferente.
O I comprido e esticado
vai chegando para cima
com aquele olho de fome
no J que se aproxima
e diz em tom de galhofa:
"ô que coisinha mais fina!".
O K com o Kama Sutra
e a cartola de Mandrake
diz que vai ser no capricho
sem agonia ou ataque
e despe as roupas do L
depois de tirar o fraque.
O M língua de fora
diz que só quer sexo oral.
Lambendo as linhas do N
faz o maior carnaval
dizendo que muita regra
na cama é um grande mal.
O O que é letra transeira
também não liga pra nada.
Gosta de curtir sem grilo
com festa e muita risada
e vai provocar o P
com uma saia rodada.
O Q diz que gosta um pouco
de curtir uma pancadinha.
Sodomasô controlado
sem risco e dentro da linha
pra levar o R às nuvens
sem deixar uma marquinha.
Rastejando como cobra
depois na ponta do pé
o S encanta a alcova
dança com fogo e com fé
E o T maravilhado
vai à sua Salomé.
O U se chega de leve
devagar muito jeitoso
porque o V letra virgem
está meio temeroso
pergunta se vai doer
e se vai chegar ao gozo.
O W é meio esquisito
e pede coisas estranhas
a um X muito manjado
sabedor das artimanhas
que se enrosca no seu corpo
com mil agrados e manhas.
O Y é um grande voyeur
num mirar que não se cansa
lambendo o Z com os olhos
na sua ardorosa dança
que nunca pode faltar
no amor e na festança.
M ergulhei e nadei mundos
A trás das letras transeiras.
R ecolhi suas lições
C urti suas brincadeiras
E vi as forças do sexo
Li vres leves sem complexo
O nipresentes e inteiras.
M ar da libido das letras:
A bre as águas aos humanos!
R obustece suas vidas.
I nstila em camas sofridas
O sal e o sol sem enganos.
D e A a Z com alegria
E ncantando e indo fundo
M ostram as letras que vivem
E curtem sexo profundo
L ançando em novas leituras
O s alfabetos do mundo.