7.11.16

TRABALHADORES DA PETROBRÁS REAGEM À IMPOSIÇÃO DE CENSURA

Via Agência Petroleira de Notícias -

Os trabalhadores e trabalhadoras da Petrobrás, em específico das bases do CENPES e EDISEN,divulgaram uma nota sobre as medidas tomadas pela Gerência de Comunicações e Marcas da empresa que anunciou uma série de limitações no controle e gestão de dados aos funcionários, criando um assim verdadeiro clima de censura.


O jogo sem regras da Ditadura Digital

Em um comunicado enviado surpreendentemente às 23:32 da segunda-feira, 31 de outubro, a gerência de Comunicações e Marcas da Petrobrás informou a toda força de trabalho que “com o objetivo de aumentar a segurança da informação na companhia, a partir de amanhã, 1º de novembro, serão implementadas duas medidas que pretendem fortalecer os nossos mecanismos internos de controle e gestão de dados. Essas mudanças fazem parte do nosso Plano de Ação de Segurança da Informação, que foi aprovado pela Diretoria Executiva e submetido ao Conselho de Administração da Petrobrás. Essas medidas atendem a recomendações feitas pela nossa auditoria externa PwC, como forma de garantir a certificação anual exigida na legislação americana para empresas que atuam naquele país, conhecida como Sarbanes-Oxley (SOx)”. Tais medidas se traduziam na proibição de uso e bloqueio de dispositivos de armazenamento removíveis como pendrives, HDs externos, CDs, DVDs e cartões de memória nos desktops e notebooks. Da mesma forma, o acesso a sites externos que permitam o compartilhamento de arquivos (como webmail, redes sociais, sites para armazenamento de arquivos, etc) seria impossível a partir da rede interna corporativa.

Dada a reação negativa e imediata da categoria em diversos comentários postados na Petronet, a empresa rapidamente voltou atrás, mantendo, porém, a proibição à gravação de informações em ferramentas de armazenamento de arquivos.

É curioso como somos impactados por legislações estadunidenses, sem que haja quaisquer relações de reciprocidade entre os países neste sentido. Curioso também que justo uma empresa como a PwC, auditoria que passou anos totalmente cega aos esquemas de corrupção na Companhia, além de ter um currículo nada digno de orgulho, possa gerar recomendações a serem seguidas pronta e desesperadamente por nossa Diretoria, a ponto de chegarmos à situação esdrúxula de sermos avisados por e-mail às 23:32h...

 A empresa não se importa em mudar ou ao menos rever as formas de contratação dos nossos empreendimentos, as quais possibilitaram a concentração do mercado por meia dúzia de firmas “epecistas”, responsáveis por um cartel que gerou imensos prejuízos à Companhia. Tampouco há interesse real em se buscar ou discutir alternativas ao plano de desinvestimentos da Petrobras, o qual também acarreta prejuízos consideráveis, enfraquecendo a verticalização da empresa. A falta de privacidade das estações de trabalho, miseravelmente chamadas de baias (não são animais que se hospedam em baias?), também não interessa, muito menos os vazamentos constantes de informações estratégicas da Companhia para imprensa, sempre mascaradas por declarações de fontes que “não quiseram se identificar”.

Nossos gestores parecem pensar que a proibição do uso de ferramentas de armazenamento de arquivos será uma jogada chave na salvação da Petrobras, instaurando uma ditadura digital e abrindo precedentes em um jogo sem regras onde somente a força de trabalho honesta é impactada. Quem sabe se tivéssemos lançado ao fogo nossos pendrives e HDs externos no passado, toda a corrupção teria sido evitada?

Está claro que a imensa maioria da força de trabalho da Petrobrás repudia quaisquer medidas esdrúxulas que, ao contrário de agregar ao nosso trabalho, apenas dificultam as ações de nosso dia a dia. Está claro que esta não é uma medida isolada de um gestor “trapalhão”, senão um passo estratégico para a entrega da companhia às multinacionais. E que também repudiamos a demonstração de falta de confiança dos gestores em nós empregados. E que a partir de agora será ainda mais recíproca.

Desejamos que a empresa, ao contrário de atitudes ditatoriais, empreenda melhorias reais em nossas estações de trabalho, apure os vazamentos de informações à imprensa, com punição dos responsáveis, reveja suas formas de contratação e busque alternativas ao plano de desinvestimentos cada vez mais acelerado. E que toda a discussão sobre Segurança da Informação pode e deve passar por um diálogo prévio com os trabalhadores, os únicos que podem, de verdade, garantir esta segurança.

Controle não se faz com lei e consultorias estrangeiras, mas sim com transparência e empoderamento da força de trabalho. Com debates de projeto de Petrobrás, democracia na elaboração do planejamento estratégico, na escolha de gestores e total possibilidade de acompanhamento da conformidade de execução das decisões coletivas. Toda e quaisquer providências adotadas fora deste âmbito servirão apenas para nos submeter aos ditames externos e nunca para nos agregar absolutamente coisa alguma.

*Material enviado por Eduardo Henrique , diretor do Sindipetro- RJ.
Texto elaborado com contribuições de petroleir@s do CENPES e EDISEN.