4.11.16

VALE O NEGOCIADO SOBRE O LEGISLADO?

Por FERNANDO PAULINO - Via APN -

Temos sombrios: jornalistas cariocas, dando tiro no próprio pé, derrubam, na prática, um  piso salarial conquistado a duras penas na Justiça. Leia artigo de Fernando Paulino, diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio de Janeiro.


Os jornalistas do Município do Rio de Janeiro abriram mão da luta pelo piso regional. Em duas assembleias da categoria, realizadas na segunda-feira, dia 31, os jornalistas que atuam em Rádio e TV aprovaram, por 175 votos a 32, a proposta patronal para as convenções coletivas de 2015 e 2016, o que significa deixar de fora a questão do piso regional, definido em R$ 2.432,72, de acordo com lei estadual aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado, no ano passado.

O diferencial da decisão dos jornalistas cariocas foi a influência de chefetes da TV Globo, que compareceram em peso na primeira assembleia, que aconteceu, na manhã do dia 31, no Colégio Divina Providência, no bairro Jardim Botânico, próximo à TV Globo.

A votação seria secreta, mas os chefetes globais conseguiram reverter para voto aberto, o que criou um constrangimento para quem imaginava votar contra a posição da TV Globo. A segunda assembleia, na sede do Sindicato, à noite, praticamente já não tinha mais condições numéricas de alterar o resultado da manhã e, mesmo assim, outros chefetes da Globo estavam presentes.

Vale lembrar que o piso regional, garantido por lei, de março de 2015, recebeu forte oposição do patronato, que entrou com recurso na Justiça e anunciou que só fecharia acordo coletivo se os jornalistas abrissem mão dessa conquista da categoria. As empresas perderam, por unanimidade, no Tribunal Regional do Trabalho e no Tribunal de Justiça.

O piso regional, por si só, garante um mínimo de dignidade profissional aos jornalistas que, nos últimos anos, recebem salários pouco acima de R$ 1 mil. Esse não é o caso de nenhum profissional da Globo, mas o fato da emissora da Família Marinho instruir seus chefetes para encher as assembleias e aprovar um arrocho salarial faz parte de um entendimento geral entre as empresas para desqualificar o trabalho dos jornalistas.

De acordo com cálculos feitos pelo Dieese, a pedido do Sindicato do Rio, a proposta de reajuste dos patrões leva a uma perda salarial de 6,01%. Como contraproposta, o Sindicato reivindicou um reajuste de 19,24% para o período 2014/2016, para que a inflação fosse zerada antes da data-base de 1º de fevereiro de 2017.

Pela proposta aprovada, o novo piso salarial terá um reajuste de 12,48%, com as seguintes especificações: Televisão – 5 horas (R$ 1.687,35); 6 horas (R$ 2.227,30); 7 horas (R$ 2.767,25). Rádio – 5 horas (R$ 1.518,30); 6 horas (R$ 2.004,15); 7 horas (R$ 2.490,01). Além disso, o reajuste será aplicado sem retroatividade aos benefícios de auxílio-alimentação, auxílio-creche, auxílio-funeral e seguro de vida.