18.1.17

A MENINA QUE VENDIA RETICÊNCIAS

MARCELO MARIO DE MELO -


- Moço, olhe aqui as reticências. Eu vendo reticências. Pode experimentar. A reticência protege você. Guarda pedaços de você. Encobre coisas. Não mostra tudo. Deixa uma expectativa no ar. As pessoas ficam esperando o que seria: se bom, se mau, como poderia ser. Você pode até não ter mais nada pra dizer, mas solta a reticência e dá a entender que tem. Aí as pessoas começam a viajar, constroem castelos e passam a conviver com eles. E se os castelos ruírem, você não terá responsabilidade nenhuma, pois a construção foi delas. Está vendo como a reticência é importante? Compre umas reticências, moço. Pelo que estou vendo, o senhor está sem nenhuma. Ou melhor, está aí com uma reticência danificada, somente com dois pontos. O que houve com o terceiro pontinho?

- Revoltou-se. Saiu de casa e disse que vai atrás de virar ponto final.

- Que coisa! E os outros pontos?

- Estão discutindo se pegam a estrada também ou se viram dois pontos. Ainda não chegaram a uma conclusão.

- E qual é o problema?

- É saber quem fica em cima e quem fica embaixo. Todos os dois querem ficar em cima.

- Hum...

- Mas voltando ao nosso assunto, eu estou precisando mesmo de umas reticências. Me dê umas muito bem fincadas no trio, porque não quero de novo passar pelo constrangimento de soltar uma reticência no ar para encerrar uma conversa e, de repente, aparecerem na frase os dois pontos anunciando mais coisa. Eu sem ter nada para dizer e tendo de espichar a conversa. Agora eu quero reticências chumbadas.

- Tá bom. Mas lhe dou um conselho.

- O que é?

- Leve também uma corda de pontos de interrogação e um jogo de parênteses, que dão uns arranjos muito bons com as reticências.

- Vou levar. Feche a conta com um ponto de exclamação!