23.1.17

CRÔNICAS DO SIMAS: OKÊ TIÃO! AMÉM, ODÉ!

LUIZ ANTONIO SIMAS -

(Naquela estrada de areia / Lá onde a lua clareou / Todos caboclos paravam / Para ver a procissão / De São Sebastião)


As guerras de fundação do Rio de Janeiro, no século XVI, lançam algumas flechas que nos marcam até hoje: entrincheirados nas paliçadas de Uruçumirim (o atual Morro da Glória), os índios resistiram, infernizaram a vida dos colonizadores, foram escravizados, combateram até o final de suas forças e acabaram relegados ao subterrâneo da história oficial.

Quem ficou bem na fita na história contada pelos vencedores foi Araribóia, o chefe temiminó que se converteu ao catolicismo, aliou-se aos portugueses, virou cavaleiro da Ordem de Cristo e recebeu, por ter lutado ao lado dos europeus contra os tamoios, a sesmaria do Morro de São Lourenço, origem da cidade de Niterói.

São Sebastião é o padroeiro do Rio de Janeiro. Um padroeiro que ressalta as incongruências, potências e desafios da cidade. Diz a tradição, afinal, que ele participa da vitória dos portugueses sobre os índios tupinambás, aliados dos franceses, que habitavam a macaia carioca. Contam que o santo foi visto de espada na mão, ao lado da turma de Estácio de Sá, lutando na Guanabara contra os índios insurgentes que emboscaram os lusitanos.

Mas como o Rio de Janeiro não é mesmo para principiantes, as coisas se transformaram. Resumo da ópera: o mesmo São Sebastião que combateu os índios acabou sincretizado (aviso logo que encaro o sincretismo como incorporação de força vital e fenômeno de fé) nas macumbas cariocas com o inquice Mutalambô e o orixá Oxóssi, deuses caçadores das florestas africanas que viraram protetores dos caboclos do Brasil.

Oxóssi e Mutalambô, que também se amalgamaram virando praticamente uma única divindade, são donos da flecha. Atiravam flechas! São Sebastião sofreu o suplício. Foi flechado!

São Sebastião é santo padroeiro porque abençoou a vitória portuguesa contra os índios. Sebastião, pelo fetiche da flecha, virou Oxóssi por obra, subversão e graça da nossa gente, nos mistérios cruzados da fé das esquinas cariocas. O padroeiro abençoou os portugueses na guerra contra os índios tamoios e acabou sincretizado com um orixá que protege exatamente a falange dos índios contra quem os ameaça. Quem gosta desses babados - vou usar uma expressão da moda - de ressignificação tem aí um prato cheio;

Que São Sebastião seja celebrado em sua procissão e cerimônias oficiais não me surpreende. Mas eu desconfio que, de alguma forma, os índios derrotados pelos fiéis do santo acabaram desvirando a morte em vida encantada. São eles, os tupinambás trucidados ontem, que dançam hoje, trazidos pelo mistério dos ventos, nas canjiras guanabaras: galopando os corpos de seus cavalos de santo, nos terreiros do Rio, em cada dia do padroeiro, saravando generosamente a nossa banda tão ferida e bradando o que a gente ainda pode ser quando cai a tarde.

Okê! Amém!
(l.a.s)