9.1.17

CRÔNICAS DO SIMAS: QUEM FALOU? O ENIGMA DA LAGOSTA

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Pequena observação. Não foi o presidente francês Charles de Gaulle que disse que o Brasil não é um país sério, máxima que só hoje li aqui umas cinco vezes, diante do descacetamento nacional. Quer saber quem foi? No final do texto eu revelo.

O babado tem relação com a Guerra da Lagosta, confusão do início da década de 1960, que começou quando um barco da Marinha brasileira flagrou uma embarcação francesa pescando lagostas em nossas águas territoriais , sem autorização. Os franceses foram postos para correr da costa do Brasil.

Estabeleceu-se, a partir daí, um ardoroso debate sobre a regulamentação da pesca e a respeito do status da lagosta como bem patrimonial brasileiro. Os franceses chegaram a enviar um contingente naval para a área da quizumba. Reagimos sob o brado patriótico de a lagosta é nossa! , rememorando a campanha pela nacionalização do petróleo no final dos anos quarenta. Mobilizamos as Forças Armadas, mandamos uma esquadra para a região e nos preparamos para a guerra. Montamos a secretíssima Operação Lagosta, com intuito de reagir a qualquer ação francesa.

Travou-se um vigoroso confronto diplomático entre os dois países, com direito a mediação do Conselho de Segurança da ONU. Os especialistas franceses sustentavam na discussão que a lagosta era apanhada quando estava nadando, sem contato com o assoalho submarino brasileiro. Podia, por isso, ser considerada um peixe.

A população discutia apaixonadamente a questão momentosa: É a lagosta um peixe? Velhos marinheiros eram consultados e acalorados debates na televisão tinham o crustáceo como tema.

Nosso especialista em oceanografia no embate, o Almirante Paulo Moreira, argumentou que o Brasil não aceitava a tese francesa de que a lagosta virava um peixe ao dar seus pulos se afastando do fundo do mar. Se assim fosse, justificou o arguto brasileiro, o canguru deveria ser considerado uma ave no momento em que dava seus saltos.

O argumento duvidoso da nossa chancelaria – se a lagosta é um peixe, o canguru é um pássaro – desarticulou o discurso francês e garantiu a vitória brasileira na contenda. Nossos direitos foram reconhecidos e a lagosta pescada em nossas águas passou a ser considerada brasileira.

Jornais brasileiros diziam que duas crises assombravam o mundo: a dos mísseis, em Cuba, e a da Lagosta, no Brasil.

Diante das notícias de que passeatas em Pernambuco bradavam lagosta ou morte e de um projeto da câmara de vereadores de uma cidade do sertão da Paraíba que propunha dar a todas as lagostas do mundo a cidadania brasileira e do fantástico "argumento do canguru", o embaixador brasileiro em Paris, Carlos Alves de Souza Filho, fez a famosa declaração de que o Brasil não é um país sério. A frase acabou creditada ao presidente francês, Charles de Gaulle, que nunca disse isso.

No fim das contas, Moreira da Silva gravou, para sacanear os franceses, o samba A Lagosta é nossa (Moreira da Silva e Kiabo):
No meu quadrado

Neca de levar pescado
Traz um ragu
Dou-lhe um Filhote de urubu

Meu litoral não é casa de mãe Joana

Você não gosta de lagosta à La Suzana
Lhe ofereço uma maré de baiacu
Dou-lhe de quebra filhote de surucucu