29.6.19

QUEM FALOU? O ENIGMA DA LAGOSTA

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Pequena observação. Não foi o presidente francês Charles de Gaulle que disse que o Brasil não é um país sério, máxima que só hoje li aqui umas cinco vezes, diante do descacetamento nacional. Quer saber quem foi? No final do texto eu revelo.

O babado tem relação com a Guerra da Lagosta, confusão do início da década de 1960, que começou quando um barco da Marinha brasileira flagrou uma embarcação francesa pescando lagostas em nossas águas territoriais, sem autorização. Os franceses foram postos para correr da costa do Brasil.

Estabeleceu-se, a partir daí, um ardoroso debate sobre a regulamentação da pesca e a respeito do status da lagosta como bem patrimonial brasileiro. Os franceses chegaram a enviar um contingente naval para a área da quizumba. Reagimos sob o brado patriótico de a lagosta é nossa!, rememorando a campanha pela nacionalização do petróleo no final dos anos quarenta. Mobilizamos as Forças Armadas, mandamos uma esquadra para a região e nos preparamos para a guerra. Montamos a secretíssima Operação Lagosta, com intuito de reagir a qualquer ação francesa.

Travou-se um vigoroso confronto diplomático entre os dois países, com direito a mediação do Conselho de Segurança da ONU. Os especialistas franceses sustentavam na discussão que a lagosta era apanhada quando estava nadando, sem contato com o assoalho submarino brasileiro. Podia, por isso, ser considerada um peixe.

A população discutia apaixonadamente a questão momentosa: É a lagosta um peixe? Velhos marinheiros eram consultados e acalorados debates na televisão tinham o crustáceo como tema.

Nosso especialista em oceanografia no embate, o Almirante Paulo Moreira, argumentou que o Brasil não aceitava a tese francesa de que a lagosta virava um peixe ao dar seus pulos se afastando do fundo do mar. Se assim fosse, justificou o arguto brasileiro, o canguru deveria ser considerado uma ave no momento em que dava seus saltos.

O argumento duvidoso da nossa chancelaria – se a lagosta é um peixe, o canguru é um pássaro – desarticulou o discurso francês e garantiu a vitória brasileira na contenda. Nossos direitos foram reconhecidos e a lagosta pescada em nossas águas passou a ser considerada brasileira.

Jornais brasileiros diziam que duas crises assombravam o mundo: a dos mísseis, em Cuba, e a da Lagosta, no Brasil.

Diante das notícias de que passeatas em Pernambuco bradavam lagosta ou morte e de um projeto da câmara de vereadores de uma cidade do sertão da Paraíba que propunha dar a todas as lagostas do mundo a cidadania brasileira e do fantástico "argumento do canguru", o embaixador brasileiro em Paris, Carlos Alves de Souza Filho, fez a famosa declaração de que o Brasil não é um país sério. A frase acabou creditada ao presidente francês, Charles de Gaulle, que nunca disse isso.

No fim das contas, Moreira da Silva gravou, para sacanear os franceses, o samba A Lagosta é nossa (Moreira da Silva e Kiabo):

No meu quadrado
Neca de levar pescado
Traz um ragu
Dou-lhe um Filhote de urubu
Meu litoral não é casa de mãe Joana
Você não gosta de lagosta à La Suzana
Lhe ofereço uma maré de baiacu
Dou-lhe de quebra filhote de surucucu