22.1.17

O PT A CAMINHO DE MAIS UM SUICÍDIO POLÍTICO NA CÂMARA

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A bancada parlamentar do PT na Câmara, que já exerceu seu direito ao suicídio político temporário nas últimas eleições da mesa, caminha para liquidar qualquer possibilidade do campo progressista de fazer política real nos próximos seis anos. Se contribuir para eleger Rodrigo Maia em troca de uma suposta vaga na direção da Casa estará entregando os dois próximos anos a um fisiologista apontado como beneficiário do esquema da Odebrecht, ninguém sabendo ainda se foi para o caixa dois de partido ou o caixa dois do próprio.

A eleição das mesas da Câmara e do Senado nos próximos dias terá um papel crucial na definição dos destinos do Brasil nos próximos anos. Está longe de ser um fato político banal. Os dois presidentes serão peça chave na eleição indireta do futuro Presidente da República caso Michel Temer, com toda a probabilidade, vier a cair. Numa situação em que todas as instituições republicanas se acham fragilizadas, o comando do Legislativo sinalizará ou a recuperação da moralidade do Governo, ou o afundamento moral definitivo.

Em termos práticos, caso a Câmara dos Deputados não eleja alguém sobre o qual não recaiam desconfianças no terreno moral, ela afundará na podridão do passado recente. É preciso, ao contrário disso, encontrar alguém que, por exemplo, não tenha integrado o esquema Cunha, mesmo sendo do PMDB, o partido majoritário. A questão de se votou ou não contra o impeachment, nesta altura, é irrelevante; só as esquerdas votaram contra. E ninguém é tão ingênuo que ache que um candidato de esquerda ganharia a eleição.

O namoro do PT com a candidatura Rodrigo Maia é um fato espantoso. Na eleição passada o partido, por arrogância, decidiu concorrer sozinho e foi vergonhosamente derrotado. Agora, por excesso de humildade, ameaça entregar a si mesmo e o país a uma corda bamba política co-governada pelo DEM, um dos partidos mais fisiológicos do Parlamento. Alguns defendem isso como pragmatismo. Eu acho que é suicídio moral para um partido que sofreu terrível perseguição política e assim mesmo não havia entregado os pontos.

No Senado a situação é igualmente complexa, porém sem muitas ambiguidades. O candidato do PMDB, supostamente com apoio do Planalto, ocupa um lugar de destaque na lista dos beneficiados pela Odebrecht. Também nesse caso não se sabe se o dinheiro se destinou a caixa dois de campanha ou ao bolso do parlamentar. Qualquer que seja o caso, será, na hipótese de vir a ser presidente do Senado, um refém do Supremo Tribunal Federal como um todo, e de cada um de seus ministros individualmente.

O fator desestabilizador de candidaturas suspeitas no Senado é a discussão que o senador Roberto Requião pretende lançar a respeito da nulidade da dívida pública dos Estados junto à União. A tese é a única que salva os governadores em exercício, e aqueles que vierem a sê-lo dentro de dois anos, do total estrangulamento financeiro prometido e exercido por Henrique Meirelles em nome da banca internacional. Uma rebelião de senadores em favor do reconhecimento da nulidade da dívida pode mudar o destino do Senado e do Brasil.

O encaminhamento dessa questão não depende apenas de Requião, nem de um pequeno grupo de senadores e governadores. Depende da quase unanimidade deles. Daí a importância de alguma forma de mobilização social que venha a ser articulada, sobretudo antes da eleição da mesa do Senado, já que depende desta última colocar o tema em tramitação na forma de projeto de Resolução. Portanto, é fundamental que todos os torturados pela dívida dos Estados, principalmente os servidores públicos e os desempregados, saiam de sua zona de conforto e façam um movimento de pressão junto aos senadores.