21.2.17

A SAÚDE É LEI SUPREMA

HÉLIO DUQUE -


Quando uma sociedade registra que três quartos da população não é capaz de ler e compreender um texto mais elaborado, fotografa realidade do sistema educacional. O Inaf (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional), em pesquisa nacional, vem de publicar que somente 26% da população brasileira é plenamente alfabetizada. Em tradução direta, significa que, mesmo detentores de formação superior, em todos os níveis, encontram dificuldades de entender leituras mais profundas nas suas mais diversas áreas do conhecimento humano, em setores profissionais fundamentais para o desenvolvimento nacional. E o mais dramático é que o Brasil investe em educação o equivalente aos países mais desenvolvidos. A grande vítima dessa realidade é a própria população.

Há anos a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) vem realizando exames para os bacharéis egressos das Faculdades de Direito. A cada ano aumenta o número de reprovados para obtenção da carteira de advogado militante. Aponta que 8, de cada 10, não alcança o nível de conhecimento jurídico para se filiar ao órgão. É um número espantoso que atinge as centenas de milhares de egressos dos cursos de Direito, ao longo das últimas décadas.

Agora o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) constatou que 56% dos médicos formados, nas 46 escolas de medicina, em atividade no Estado, ingressam no mercado de trabalho com carência de conhecimentos básicos. Citando que 80% não sabem interpretar uma radiografia e que 70% não conseguiram diagnosticar um paciente com crise hipertensiva, doença que frequenta o quase cotidiano de 25% da população brasileira. O conselho médico de SP, ao divulgar os resultados dos exames realizados em 2016, constatou que, dos 2.766 inscritos, somente 43,6% atingiram a pontuação que os habilita para o pleno exercício profissional.

O médico Bráulio Luna Filho, diretor do Cremesp e coordenador dos exames, que vem realizando desde 2005, constatou: “Com exceção do exame de 2015, nos últimos dez anos o índice de reprovação ficou acima de 50%. É preciso que as escolas médicas promovam melhorias nos métodos de ensino e imprimam mais rigor em seus sistemas de avaliação”. Infelizmente as provas e o caótico resultado não impedem os futuros médicos para o exercício profissional. Somente para o programa de residência médica, instituições a exemplo da USP, Unicamp, Unifesp e Santa Casa, desde 2015, passaram a exigir aprovação nos exames do Cremesp, para ingresso.

A “Folha de S.Paulo” (9-2-2017) publicou importante matéria de autoria da jornalista Claudia Collucci, apontando as áreas problemáticas: “As médias mais baixas foram em saúde pública/epidemiologia (49,1%); pediatria (53,3%); e obstetrícia (54,7%). Segundo os resultados, 71% dos recém-formados não acertaram diagnóstico e tratamento para hipoglicemia de recém-nascido, problema comum nos bebês”. No seu texto aponta: “As escolas médicas privadas continuam com pior desempenho em relação às públicas (33,7% contra 62,2%) de aprovação, respectivamente. Em ambas houve aumento de reprovação em relação a 2015. Entre as públicas de 26% para 38%. Entre os cursos privados, de 59% para 66%.”

Sendo a saúde de uma sociedade considerada, como dizia o saudoso amigo e médico Dalton Paranaguá, suprema lei, o resultado oficializado pelo Cremesp, no Estado mais desenvolvido do País, é devastador. Se na paulicéia, onde, indiscutivelmente, o padrão da medicina hospitalar está anos luz à frente da totalidade dos Estados brasileiros, imaginem o que pode estar ocorrendo em outras unidades federativas. Não seria oportuno que outros Conselhos Regionais de Medicina, em respeito ao pai da medicina ocidental Hipócrates, que ensinava que o humanismo é parte integrante da personalidade do médico, seguisse o exemplo do Cremesp paulista? Há 2.500 na velha Grécia, ele ensinava: “Também prescreverei regimes de estilo de vida que beneficiem meus pacientes, de acordo com minha melhor capacidade e julgamento. E eu não vou lhes causar mal ou causar-lhes maus tratos”.

*Hélio Duque é doutor em Ciências, área econômica, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Foi Deputado Federal (1978-1991). É autor de vários livros sobre a economia brasileira.