26.2.17

A TOLERÂNCIA NECESSÁRIA E URGENTE NUM TEMPO DE TOTAL INTOLERÂNCIA

Por LEONARDO BOFF - Via O Tempo -

Hoje impera muita intolerância contra alguns partidos, como o PT ou os de base socialista e comunista. Intolerância severa, por vezes criminosa, que algumas igrejas neopentecostais alimentam e propagam contra as religiões afro-brasileiras, satanizando-as e até invadindo e danificando terreiros. Há intolerância que leva a crimes especialmente contra o grupo LGBT. Vítima de intolerância é também o papa Francisco, atacado e caluniado até com cartazes espalhados pelos muros de Roma.

O cristianismo das origens era extremamente tolerante. Jesus ensinou que devemos tolerar que o joio cresça junto com o trigo. Só na colheita far-se-á a separação. São Pedro, já feito apóstolo, seguia os costumes judeus: não podia entrar na casa de pagãos nem comer certos alimentos, pois isso o tornaria impuro. Mas, ao ser convidado por um oficial romano, de nome Cornélio, acabou visitando-o e constatou sua profunda piedade e seu cuidado pelos pobres. Então, concluiu:

“Deus me mostrou que nenhum homem deve ser considerado profano e impuro; agora reconheço deveras que não há em Deus discriminação de pessoas, mas lhe é agradável quem, em qualquer nação, tiver reverência a Deus e praticar a justiça” (Atos: 10, 28-35).

Desse relato se deduz que o diálogo e o encontro entre as pessoas que buscam uma orientação religiosa invalidam o preconceito e o tabu de coibir algum contato com o diferente. Do fato resulta também que Deus é encontrado infalivelmente onde “houver reverência ao Sagrado e se praticar a justiça”, pouco importa sua inscrição religiosa.

Ademais, Jesus ensinou que a adoração a Deus vai para além dos templos porque “os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade e são estes que o Pai deseja” (Jo 4, 23).

Existe, portanto, a religião do Espírito, quer dizer, todos os que vivem valores não materiais e são fiéis à verdade estão seguramente no caminho que conduz a Deus. Suspeito que não há maior tolerância do que essa atitude de Jesus, abandonada ao longo da história pela Igreja como poder institucional que discriminou judeus, pagãos, hereges e outros tantos que levou à fogueira da Inquisição.

No Brasil, temos o caso clamoroso do padre Gabriel Malagrida (1689-1761), que missionou no Norte do Brasil, mas por razões políticas foi morto pela Inquisição em Lisboa por “garrote, e depois de morto, (…) seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e de sua sepultura não haja memória alguma”. Eis um exemplo de completa intolerância, hoje atualizada pelo Estado Islâmico, que degola a quem não se converte ao islamismo fundamentalista.

Enfim, o que é a tolerância hoje tão violada? Há, fundamentalmente, dois tipos, uma passiva e outra ativa. A tolerância passiva representa a atitude de quem permite a coexistência com o outro porque não o consegue evitar. Os diferentes se fazem, então, indiferentes entre si. A tolerância ativa consiste na atitude de quem positivamente convive com o outro porque tem respeito a ele e consegue ver suas riquezas, que sem o diferente jamais veria.

Ninguém é igual ao outro, todos têm uma marca que diferencia. As diferenças mostram a riqueza da única e mesma humanidade. Podemos ser humanos de muitas formas.

O ser humano deve ser tolerante como toda a realidade o é. A intolerância será sempre um desvio e uma patologia e assim deve ser considerada. Produz efeitos destrutivos por não acolher as diferenças.

A tolerância é fundamentalmente a virtude que subjaz à democracia. Esta só funciona quando há tolerância com as diferenças partidárias, ideológicas ou outras, todas elas reconhecidas como tais.