24.2.17

CONVERSA COM O IGNORADO

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MARCELO MÁRIO DE MELO -

Cansado com a multiplicação de doutrinas religiosas, seitas filosóficas e dogmas de ciência tratando dele com tabelinha e receita pronta, decidiu ir atrás do Ignorado para checar tudo na fonte em conversa olho no olho.

Percorreu territórios de poréns, criatórios de nós cegos, sub-salas de temores, abismos de fantasma e morte, fronteiras de treva e cinza, e, finalmente, o encontrou no Altiplano dos Enigmas.Foi se aproximando e, antes de dizer qualquer coisa, ele tomou a palavra.

- Mais um que quer saber de tudo, com a ilusão de voltar para casa com o recorte redondinho no bolso, a última pecinha a completar o quebra-cabeça. Pois vai voltar do jeitinho que veio, sem resposta nenhuma e de cabeça quebrada.

- E por que isso?

- Porque é assim mesmo, meu filho. Se eu, que sou o Ignorado, também ignoro, por que é que seria diferente com vocês? Você acha que eu estou sabendo mesmo de tudo o que se move no mundo? Se soubesse, não seria eu o Ignorado. E você acha que isso vai ser possível algum dia? Tire o cavalinho da chuva, pois não é não! Já ouviu falar do Infinito? Pois então! A cada pedaço de caminho que a gente percorre, pensando chegar ao fim, de repente aparece outro começo de estrada e vem mais outra, depois mais outra, cada uma com suas nuvens de interrogação. E assim será sempre. Repostas prontas eu não tenho, nem quero, nem procuro. Sempre me esforço para conhecer mais. Vivo andando, pesquisando, analisando, descobrindo muito e ignorando cada vez mais. Ignoro até o tamanho da minha ignorância. Vivo e procuro e pronto. E como sou imortal e infinito, viverei sempre assim.

- Qual a mensagem que o senhor tem para os animais racionais da terra? Um conselho, uma recomendação, coisa assim...

- Ainda bem que você disse “os animais racionais da terra, porque pode ser que existam animais racionais noutros planetas, noutras galáxias. Coisa que ainda ignoramos.

- Mas qual é sua mensagem?

- Em primeiro lugar eu recomendo a vocês que se acostumem a conviver comigo. Vocês me estranham e me rejeitam. E ainda me atrapalham nas minhas pesquisas e meditações. Vivem subindo aqui o tempo todo,com perguntinhas de dois e dois são quatro, querendo respostas simples para coisas complexas com fios desconhecidos. Ora, aceitem conviver com o Ignorado. Vocês moram num edifício, numa rua, numa cidade, num estado, num país, num mundo cheio de pessoas e coisas. E jamais Irão conhecer a maior parte do que por aí perfila. Então, acostumem-se com a ideia de que irão viver e morrer sem resposta para muitas perguntas envolvendo enigmas e sutilezas da energia. Mesmo com a teoria da relatividade e a física quântica. Porque o conhecimento gosta do manto esvoaçante das reticências e nunca vai vestir o fraque do ponto final.

- É só isto o que o senhor tem a dizer?

- Tem mais. E este é um pedido muito pessoal. Pesquisem, interroguem sobre mim, andem nos meus territórios procurando o que quiserem e revelem o que descobrirem. Mas por favor, não inventem nada a meu respeito em teoria de religião, catecismo de ciência e sermão de filosofia. Só admito invenção sobre mim, se for invenção de artista, porque de saída já se sabe que é invenção mesmo, e assim não se passa gato por lebre. Vivo mergulhado num poço sem fundo de enigmas incessantes que se multiplicam no sem fim. Sou o Ignorado absoluto, abrindo sempre novas janelas. Portanto, não me venham com perguntinhas atrás de respostas de palavras cruzadas.