31.3.17

A ABSURDA ESPERANÇA DA VELA NO BREU

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Escrevi ontem, diretamente da mesa do Bode Cheiroso, um texto curto, embalado por umas cangebrinas e com alguma repercussão, sobre o desmonte da cidade do Rio de Janeiro. Após um início bem pessimista , terminei - e não era essa a intenção quando comecei a escrevê-lo precariamente - com uma lufada de otimismo na potência que, ao longo de sua história, a cidade tem para encantar a vida na fresta.

Daí é que me pediram, ainda ontem, para desenvolver melhor a argumentação sobre a minha esperança absurda (toda esperança flerta com o absurdo, afinal). Então vamos lá. Recorro a algumas ideias que desenvolvo há uns oito, nove anos, que acabaram sintetizadas no Pedrinhas Miudinhas, livro que lancei em 2013. Não vejo desde então razões para pensar de outra forma.

Eu recebo com frequência indagações sobre minhas referências para falar da História da cidade do Rio e interagir com ela. Respondo ludicamente que me inspiro nas lições do Caboclo da Pedra Preta, aquele que cantou a beleza da pedrinha miudinha de Aruanda e encontrou, no que aparentemente é insignificante, o caminho para entender e indagar o mundo. Deliro que Walter Benjamin consultou-se com ele numa macaia imaginada.

Busco pensar, já era essa a base do Pedrinhas, a cultura carioca a partir de um poder que Exu tem: o de ser ‘enugbarijó’, a boca que tudo come. Exu come o que lhe for oferecido e, logo depois, restitui o que engoliu de forma renovada, como potência que, ao mesmo tempo, preserva e transforma.

A cidade que me interessa, enfim, é aquela que nas frestas e esquinas ritualiza a vida para o encantamento dos cantos e dos corpos. Aquela que subverteu a chibata que deu no corpo em baqueta que bateu no couro do tambor, conforme digo com frequência.

Nós estamos adoecidos de ‘ismos’, não duvido disso. Clamamos por revoluções libertadoras que são, paradoxalmente, normativas. Há quem desqualifique os saberes da gira; há quem os abrace exoticamente como modos de fazer alternativos, sem a coragem, todavia, para o mergulho que raspará o fundo do tacho; há quem os veja de forma paternalista e simpática, sem descer do pedestal de suas epistemes viciadas.

Caladas por uma cidade oficial historicamente propensa a demolir seus lugares potenciais de memória, em constante negação do que somos e não queremos admitir, as culturas historicamente subalternizadas das ruas do Rio reinventaram a vida no vazio do sincopado, sambando, ousando discursos não verbalizados e soluções originais a partir dos corpos em transe e em trânsito, em desafiadora negação da morte, solapada pelo bailado caboclo dos ancestrais que baixam em seus cavalos nas canjiras de santo.

Aqui, afinal, no meio do mais absoluto horror falaram também aguerés, cabulas, muzenzas, barraventos, avamunhas, satós, ijexás, ibins e adarruns. Na maioria das vezes, proibidos. Sempre vivos. As folhas foram encantadas pelo korin-ewé que chamou Ossain, o Katendê dos bantos. Os toques do tambor são idiomas que criaram, nos cantos mais inusitados da cidade, espaços de encantamento do cotidiano: terreiros.

Muito além de ritos religiosos, nossas macumbas (sambadas, gingadas, funkeadas, carnavalizadas, dribladas na linha de fundo) traçam as tramas do diálogo com ancestrais e apontam para os corpos cariocas como assentamentos animados, gongás feitos de sangue, músculos e ossos, carregados de pulsão da vida. Não há encruzilhada da cidade que não fale disso.

Há quem prefira a cidade desencantada, aquela que não assusta por ter dispersado o seu axé, adequadamente moldada para a circulação de carros e mercadorias, vitimada pela sanha demolidora da bandidagem engravatada, devastada em seu imaginário de afetos: do Maracanã de tantos gols, da UERJ de tantas ideias, das barbearias de rua, dos botequins mais vagabundos, dos açougues e quitandas da Zona Norte, das sociabilidades meninas dos debicadores de pipa, dos pregoeiros da Central, da malandragem do jogo de ronda, dos artistas anônimos do Japeri, dos boiadeiros cavalgadores dos ventos, do malandro das Alagoas e dos tupinambás flechadores de Uruçu-Mirim descendo em gira de lei.

De uma cidade sem o sal da memória dos dias longos e da noite grande não sairá nada. Estamos agonizando e eu não acredito em nenhuma transformação efetiva no Rio de Janeiro que, no combate aos kiumbas poderosos e na luta pela justiça social, desconheça o manancial que as culturas do tambor representam e as formas desafiadoras de narrativa que elas elaboraram sobre o lugar.

A lufada de esperança vaga que tenho é porque continuo apostando que nas frestas - entre as gigantescas torres empresariais viradas em esqueletos de concreto e as ruínas de arenas multiúso - os couros percutidos continuarão cantando a vitória da vida sobre a morte no terreiro grande da Guanabara.

A nossa História, é disso que falo, afirma isso em cada gargalhada zombeteira dos exus, daquelas que saem dos terreiros entocados, das brechas, do cu do mundo, das tocas de bicho-homem, das saias das bombogiras, da lua de Luanda e da terra, essa aqui, que nos pariu e nos ensinou que a vida - a despeito desses putos e contra eles - não é, não pode ser e não será só isso que se vê.

Resumidamente é isso, como no samba.