6.3.17

IMPRESSÕES SOBRE O CARNAVAL

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Ao acatar o chilique da arquidiocese sobre o Cristo/Oxalá, a direção da Mangueira demonstra apenas que não acredita na mensagem de pluralidade religiosa que o próprio enredo defende como bandeira e prefere a acomodação política com a turma de Dom Orani. Acompanho os desfiles da avenida desde moleque, em meados dos anos de 1980 (são pouco mais de 30 aninhos de Sapucaí) e posso dizer com tranquilidade que poucas vezes vi um trabalho tão harmônico, delicado, contundente, pedagógico, como o do Leandro Vieira em 2017. Uma aula dramática e estética de cultura popular do mais alto gabarito; daquelas que merecem ser difundidas em escolas, terreiros e, por que não?, igrejas. O desfile não merecia esse desfecho que, paradoxalmente, mostra apenas que enredos assim são cada vez mais necessários. A Mangueira é maior do que esse abaixar de cabeça para a arquidiocese. Já o tamanho dessa arquidiocese é este mesmo.

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No ano passado rolou uma negociação entre a arquidiocese do Rio de Janeiro e a Estácio de Sá, escola que desfilou com um enredo sobre São Jorge. A Igreja resolveu aceitar o enredo da Estácio depois de analisar a sinopse da escola e ter a garantia de que o sincretismo com Ogum não seria abordado na Sapucaí (a igreja, registro, já tinha criado caso com a Estácio quando esta, ainda como Unidos de São Carlos, desfilou em 1975 com um enredo sobre o Círio de Nazaré abordando também os aspectos profanos da festa). Na ocasião do rolo sobre São Jorge, dei pequenas entrevistas para O Globo e para a Veja Rio ressaltando que a Estácio tinha dado uma volta malandra na arquidiocese. O samba era cheio de referências veladas ao sincretismo com Ogum. Acontece que eu realmente achei no ano passado que a igreja passaria a ser mais condescendente, a partir desse caso da Estácio, com as escolas de samba, sobretudo em virtude de uma disputa pelo mercado da fé com os neopentecostais. Coisa nenhuma. Baixou o caboclo inquisidor em Dom Orani em 2017, cambonado pela própria direção da Mangueira e pela Liesa (leia-se "pelas escolas de samba") que não vê lá muita importância em uma inspeção séria sobre a segurança dos carros alegóricos mas leva a bizarra "inspeção religiosa" nos barracões com toda a seriedade.

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Sobre o bafafá do esquenta do Salgueiro nas campeãs. O que aconteceu (o samba derrotado na disputa ter sido cantado no esquenta) é apenas ligeiro sintoma de algo muito maior. As grandes escolas de samba do Rio de Janeiro foram fundadas por compositores. A ala de compositores era o setor pensante, orgânico, das escolas de samba cariocas. Hoje, vamos admitir, ala de compositores já era. Como grupo que se reunia para pensar o Carnaval, articular instâncias de sociabilidades cotidianas na agremiação, compor e difundir sambas de terreiro, articular as ligações entre os mais jovens e os mais velhos das escolas a partir das noções de hierarquia e ancestralidade, servir como depositária da memória sonora da agremiação e do próprio Carnaval carioca (era basicamente isso que constava dos estatutos das alas nos tempos idos), as alas já eram. O que temos hoje são alas mobilizadas quase exclusivamente pelo desejo selvagem de ganhar sambas de enredo e em que o prestígio de seus membros se estabelece mais na capacidade de aglutinar parcerias capazes de viabilizar os altíssimos custos financeiros e políticos de uma disputa. Refundar as alas de compositores - não sei se ainda é possível e acho que se bobear nem os compositores, com exceções, querem isso - deveria ser uma preocupação de todos aqueles que consideram as escolas de samba como instituições culturais de vanguarda e manutenção dinâmica das tradições do samba.

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