23.3.17

MACONHA EM SANTA TERESA

ANDRÉ BARROS -


A Polícia Militar do Rio de Janeiro ostenta em seu brasão o ano de 1809. Isto porque a Guarda Real de Polícia foi criada no ano seguinte à chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro, fugida de Napoleão com cerca de 15 mil pessoas da corte. A ameaça da recente e bem sucedida revolução escrava do Haiti, somada a uma população desta cidade com mais da metade por negros escravizados, fez com que o Príncipe Regente Dom João criasse naquele ano a Divisão Militar da Guarda Real de Polícia.

Era uma polícia de costumes, que tinha como função primordial reprimir as festas com maconha, cachaça e música afro-brasileira. Os membros da Guarda Real, escolhidos por seu tamanho e truculência, começavam a substituir os capitães do mato. Ataques a quilombos situados nos morros que rodeavam a cidade eram uma das principais atividades repressivas. Uma das proezas mais decantadas por Miguel Nunes Vidigal, o mais conhecido membro da Guarda Real, ocorreu em 19 de setembro de 1823, quando prendeu mais de 200 homens, mulheres e crianças num quilombo no morro de Santa Teresa e desfilou pelo centro da cidade com todos seminus.

As encostas arborizadas do morro de Santa Teresa eram bons lugares para a vida nos quilombos e a proximidade do centro permitia que à noite os quilombolas conseguissem mantimentos. Os negros escravizados buscavam sua liberdade e uma vida coletiva nos quilombos, que surgiram em todo o país. O mais importante do Brasil foi o Quilombo dos Palmares, em Alagoas, que resistiu bravamente a várias invasões no século XVII. Viviam de forma comunitária e plantavam sua própria maconha, consumindo o “fumo de Angola” em cachimbos feitos com cocos de palmeira.

O hábito de fumar maconha foi trazido ao Brasil pelos negros degredados da África e, certamente, fazia parte da cultura dos quilombos de Santa Teresa. Esses quilombos não acabaram, mas resistiram durante séculos, e o Rio de Janeiro é uma prova dessa história. Por que na cidade que teve a maior população escravizada do país e do mundo, os negros vivem nos morros, chamados hoje de favelas e comunidades? Será que os morros da Serrinha, do Salgueiro e da Mangueira não são quilombos? E os morros dos Prazeres, da Coroa e outras localidades de Santa Teresa não foram quilombos, ainda mais com toda essa história?

Nesse quilombos de Santa Teresa, a maconha sempre foi fumada como na África. A maconha é apreciada até hoje em Santa Teresa e por todo o Brasil graças aos negros, que resistiram com sua cultura. As bocas de fumo surgiram nos morros e a resistência foi dos negros. A classe média branca vai apreciar a erva somente nos anos 60, com a chegada da contracultura e do movimento hippie. O cachimbo da paz rolou entre os que já estavam no morro em busca da liberdade com os que lá subiram em busca de uma vida alternativa nas curvas harmônicas dos trilhos do bonde de Santa Teresa.

Esse cenário me faz recordar a canção do grupo Acorda Bamba, gravada por Elba Ramalho em 1997: “Em Santa Teresa / tenho os meus Prazeres / quem não tem Coroa / lá no Fogueteiro // Em cima do morro oi iô ô / tem pipa no alto ô iá iá // E a gente no asfalto do Rio de Janeiro / correndo atrás das pipas balão soltou foi lá de cima do morro …” (Guilherme Guimarães e Marinaldo Guimarães)

Infelizmente, nesse lindo e bucólico bairro carioca, a mesma polícia, com o ano de 1809 em seu brasão, entra onde vivem os negros e pobres, atirando e matando crianças, em horário escolar, mães e pais que estão indo trabalhar. Usam a criminalização da maconha e de outras substâncias tornadas ilícitas para justificar esse massacre contra negros e pobres.

Santa Teresa tem uma dívida histórica com a erva da paz e a luta pela legalização do “fumo de Angola” é um primeiro grande passo contra toda essa violência racista. Precisamos construir a Marcha da Maconha de Santa Teresa para começar a plantar a paz no bairro como exemplo ao Brasil.