6.3.17

UMA AVALIAÇÃO DA POLÍTICA NO CARNAVAL

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Salvo em dois carros elétricos, um em São Paulo e outro em Salvador, não ouvi gritos de “fora Temer” em outras manifestações de carnaval apresentadas na televisão. Dado que temos uma das maiores taxas de desemprego da história e uma contração da economia por três anos aos seguidos, fato sem precedentes em nossa história, tentarei levantar algumas hipóteses para explicar esse fenômeno contraditório.

Primeira hipóteses. As pessoas estão indiferentes à crise econômica e política porque, individualmente, estão numa redoma razoavelmente protegida. De fato, para 15% de desempregados, taxa para a qual caminhamos celeremente, há aproximadamente 85% de empregados. Antes que a situação dos empregados piore é melhor cair na folia já que o carnaval alivia o stress da expectativa negativa gerada por alguns órgãos de comunicação.

Segunda hipótese. A situação pessoal está tão ruim que a pessoa decide jogar tudo para o alto e usufruir do carnaval enquanto pode. As preocupações com a crise, principalmente com o desemprego ou a melhora do emprego, ficam adiadas para depois do carnaval. Afinal, durante o carnaval ninguém trabalha ou, exceto em casos excepcionais, ninguém está disposto a oferecer emprego.

Terceira hipótese. A pessoa desistiu de procurar emprego por causa do desalento; como não custa nada sair atrás de um trio elétrico, junta-se aos outros foliões para combater a tristeza e a desesperança, e se retira do mercado de trabalho confiando em algum fonte de renda informal que venha a conseguir depois do carnaval.

Quarta hipótese. Confrontado com a realidade de que não adiante procurar emprego a curto prazo, ou tentar melhorar de vida, a pessoa se junta aos milhões que saem às ruas a fim de combater a tristeza, esperando algum milagre que venha a mudar a situação econômica brasileira nos próximos meses.

Quinta hipótese. Os poucos foliões que, nos trens elétricos de Salvador e de São Paulo, levantaram seus gritos de “fora Temer”, mostraram que nos subterrâneos da sociedade ainda há uma vontade de participação na vida política brasileira mesmo em pleno carnaval. Essa vontade de participação pode ampliar-se até envolver multidões, ou pode ficar confinada em nichos corporativos pouco expressivos.

No primeiro caso, é possível imaginar algo como as grandes manifestações de 2013. Contudo, para uma clara avaliação disso, será necessário que entendamos 2013: acaso seria um fenômeno espontâneo comandado por jovens, ou seria uma provocação política que, em última instância, acabou resultando no impeachment de Dilma. Nese último caso, agora pelo menos estamos livres, graças a Donald Trump, dos conspiradores neoliberais e neoconservadores que, tudo indica, haviam se metido no projeto de golpe bem sucedido no Brasil e que, de qualquer modo, nada fariam contra Michel Temer.