1.3.17

VIDA QUASE ETERNA

Por PAULO METRI -


O gerontologista e biomédico Aubrey de Grey proferiu uma palestra no evento “Campus Party Brasil”, recentemente, quando fez a seguinte declaração: “Muitas das pessoas que já estão vivas hoje nunca serão biologicamente velhas”. Em outras palavras, ele admite a possibilidade da imortalidade.

De Grey atua hoje como diretor científico (CSO) da SENS Research Fountation, uma ONG baseada na Califórnia responsável pelo financiamento de pesquisas que buscam retardar os efeitos da velhice. Ele afirma: "O corpo humano é uma máquina e o efeito colateral da operação dessa máquina é a criação dos danos". Assim, o pesquisador propõe um processo contínuo de "manutenção" do corpo humano. Ele continua: “A ideia é fazer pequenos reparos incrementais ao ser humano ao longo de toda a vida, com remédios que mitiguem os efeitos dos ‘danos’ trazidos pelo tempo e posterguem a velhice biológica”.

Pode-se ler, nesta última frase, que o palestrante contradiz o que havia falado anteriormente, porque, agora, ele fala de “remédios que ... posterguem a velhice biológica”. Ele não fala em remédios que suspendem o processo de envelhecimento. Isto, de forma alguma, retira o mérito das pesquisas que desenvolve. Provavelmente, os seres humanos continuarão mortais, mas o tempo médio da vida humana poderá aumentar muito. Assim, se trata da descoberta da “Fonte da Juventude” que a humanidade está à procura desde priscas eras. Por exemplo, Ponce de Leon foi atingido por uma flecha envenenada e morreu em 1521, enquanto procurava esta fonte na Florida.

Por outro lado, nada é dito, mas estes medicamentos de combate à velhice serão utilizados, pelo menos logo após o seu aparecimento, pela classe mais alta da sociedade de países desenvolvidos. Fica uma dúvida: o processo de envelhecimento será retardado, mas a incidência das diversas doenças não relacionadas com a velhice continuará existindo? A aparição desta nova categoria de humanos, os muito longevos, irá acarretar um número enorme de consequências. Haverá grande pressão para este medicamento chegar para outras classes sociais e em outros países. À medida que este prolongamento da vida humana se dissemina por outras classes sociais, haverá uma forte explosão demográfica com aumento do consumo de recursos naturais. Por ironia do destino, a humanidade, quase atingindo a imortalidade, passará a correr o risco de deixar de existir por exaustão completa de recursos naturais vitais.

Continuando a prever situações futuras sem grande análise das suas consistências, bodas de ouro serão comemoradas quando os casais tiverem 200 anos de casados ou mais. Os seres menos estáveis irão se casar uma dezena de vezes durante a vida prolongada. Os casais, se assim decidirem, poderão deixar mais de uma dúzia de filhos. Os serviços funerários terão grande baixa da arrecadação, podendo vir a se recuperar no futuro com a superpopulação.

Como sempre ocorreram classes sociais na história da humanidade, é possível que o prolongamento da vida não chegue às classes menos favorecidas da sociedade, induzindo a criação do movimento dos sem vida longa (MSVL).

Apesar da idade média do habitante de determinado país desenvolvido ter uma variação muito grande, seu governante desalmado resolveu que a idade de aposentadoria deveria levar em conta a idade média dos habitantes, considerando também os abastados, que não precisam da aposentadoria e elevam muito a tal média. O resultado é que nenhum dos pobres irá se aposentar.

Além das “uvas estarem verdes”, acho que viver duzentos ou trezentos anos deve ser muito chato. A exiguidade do tempo do jogo é que traz emoção. Se alguém tem que fazer algo, por que fazer agora? Tem-se muito tempo para fazer tudo. E se pode errar à vontade, pois há tempo de sobra para se corrigir o erro. Se eu tivesse vida tão longa, esta crônica nunca seria escrita, pois teria tempo para elaborar um tratado sobre o tema. Ele demoraria um ano, mas o que é um ano? Um nada!

*Enviado para o e-mail da redação. Paulo Metri, conselheiro do Clube de Engenharia.