16.4.17

A URGÊNCIA DE UMA FRENTE DE ESQUERDA NO BRASIL

ADERSON BUSSINGER -


Primeiramente, desejo registrar que não apoiei o golpe parlamentar-judicial que derrubou a presidente Dilma, trazendo para presidência mais do que um corrupto golpista, mas fundamentalmente uma política de governo antitrabalhador e entreguista que havia sido derrotada nas urnas em 2014.

Mas isto não significa nem aconselha que devamos ser condescendentes com o PT e suas opções a direita. (E nem acreditar que PSDB e PT sejam as únicas opções possíveis). Pois bem, em meio a mais esta enxurrada de denúncias, envolvendo mais de  90  políticos, do PMDB, PT, PSDB, PC do B, DEM e outros, vêm ocorrendo que muitos amigos - de forma sincera - me questionam especialmente em relação ao PT, partido que ajudei a organizar, inclusive tendo sido filiado e militado em Diadema, berço do petismo militante e operário, ainda em 1989. Bons tempos ainda aqueles!

Mas mesmo sendo tempos bastante diferentes do que hoje vivemos - e aqui começo (ou tento) responder a estes caros amigos que me indagam sobre o meu ex-partido, tenho a dizer que realmente nada, absolutamente nada do que hoje está ocorrendo me surpreende neste partido, bem como nos seus mais de uma dezena de anos de habitação no palácio do Planalto. Ou no governo do Rio de Janeiro juntamente com o PMDB de Cabral, nas alianças com Sarney, Maluf, Jader Barbalho e Renan Calheiros, dentre muitos outros. Isto realmente não poderia desaguar em um outro rio, senão no imenso e turvo rio dos negócios do empresariado, financistas e, com estes, a corrupção intrínseca a este minoritário meio e o que é muito pior: a traição da classe trabalhadora! A defesa e gestão de outros interesses que não aqueles dos trabalhadores e da maioria do povo.

E já em 1990, quando então militava, como advogado trabalhista, na  citada cidade de Diadema, corri da polícia, assisti na DP dezenas de companheiros presos (dentre estes dois vereadores então do PT, Romildo e Boni), detidos não por motivo de corrupção, mas por  se oporem, em dezembro de 1889, ao cruel desalojamento de centenas de famílias em um bairro paupérrimo de Diadema, batizado pelos  ocupantes  de  "Vila Socialista". Ninguém me contou, pois eu próprio estava lá e vi: a prefeitura governada pelo PT juntamente com o Estado comandado pelo Governador Fleury, expulsando as famílias, crianças, idosos, debaixo de balas (não de borracha) e muito gás lacrimogêneo. E um destes bravos vereadores (já naquela época críticos dos retrocessos que tinham lugar no PT) perdeu a mão no conflito.

Pois então, o que desejo dizer é que realmente nada disto me surpreende, somente entristece, não pelo PT, (pois este, depois disto, só fez degenerar ainda mais), mas pelo fato de que não conseguimos ainda construir uma alternativa a esta direção petista, aos olhos de coletividades mais amplas de trabalhadores e do povo em geral, que realmente seja expressiva, efetiva, pois não estou aqui me referindo às tentativas do PSTU, PCB, de setores de esquerda do PSOL e outras iniciativas menores. São todas louváveis, dignas de respeito (eu mesmo tentei fazer isto quando estive  no PSTU). Mas o fato é que não conseguimos, salvo importantes inserções e trabalhos no movimento sindical (mas muito sindical ainda), apresentar uma alternativa de esquerda, ainda, ao malogro do atual governo, que possa representar uma perspectiva política de real peso neste país continental.

Provavelmente, se tivéssemos logrado construir esta frente de esquerda, não teriam ido às ruas tanta gente "de verde e amarelo" apoiando, muitos sem até saber, políticas patronais da FIRJAN e FIESP. E o que vemos, atualmente, é o pensamento de direita ganhar terreno, figuras odiosas como Bolsonaro, no RJ, e outras populistas como Doria, em SP, ganharem igualmente espaço nas mentes e corações de camadas do povo pobre, isto sem contar o peso que passaram a ter na dita classe média. Não por seus méritos, mas pela falta de opção visível  à esquerda.

São enganadores, colocando-se como críticos dos políticos e da corrupção, mas de fato vinculados, cada um ao seu modo, programa (e financiamento), a velha política que rouba e explora o povo trabalhador todos os dias, sem parar,  desde longa data. "Salvadores da Pátria", como também se arvora um outro político, dotado de outros instrumentos (judiciais): o juiz Moro. Este, o novo caçador de corruptos (em verdade apenas de parte destes...), com conexões nacionais e internacionais (EUA) que certamente ainda virão à tona.

Collor foi outro destes "salvadores da pátria brasileira". Deu no que deu. E ainda está dando... Mas voltando ao que me surpreende, - ou não surpreende, eu realmente me surpreendo com a incapacidade da esquerda (sem o PT, claro) de se unir em uma efetiva e cada vez mais necessária frente de esquerda neste país, que reúna todos os homens e mulheres que ainda defendem um governo DE TRABALHADORES, uma política de classe, com um programa mínimo para governar para os trabalhadores, os operários industriais, professores, intelectuais, funcionários públicos, técnicos em geral, das áreas industriais e agrícolas, e principalmente aqueles que cultivam a terra: os camponeses, os que também estudam, pequenos comerciantes, donos de pequenos negócios que também trabalham; profissionais liberais, movimentos sociais e libertários, contra todos os preconceitos, de gênero, racial e sexual, fazendo assim uma verdadeira linha de corte neste país, um "divisor de águas" neste sujo oceano da política, colocando do OUTRO LADO, (e do outro lado mesmo!), banqueiros, industriais, donos dos grandes grupos econômicos do comércio e prestação de serviços, a elite nacional e estrangeira que, unidas, associadas,  aqui só  nos faz explorar!

E assim, na luta primeiramente, e também nos pleitos eleitorais, tentarmos somar forças para virar este jogo; acumular forças para ganhar esta guerra; construir um país melhor, que só pode começar pelo socialismo; e por isto só pode mesmo ser governado pelos trabalhadores, e tudo isto com democracia, muita transparência, para que não deságue em outro rio turvo de outrora: o estalinismo! Junto com os trabalhadores e a maioria do povo, sempre.

Por isto, meus amigos, precisamos já de uma frente de esquerda neste país, como temos visto na Grécia, Espanha, Portugal, ainda que com problemas também, mas o saldo é positivo. Uma frente que una inicialmente o PSOL, PSTU, PCB e movimentos sociais que estão na luta. Eu acredito que este é o caminho, com todas as dificuldades deste, pois para muito além de eleições, faz-se necessário, urgente, realizar uma forte greve geral no próximo dia 28. Impedir o avanço destas contrarreformas em nosso país, em todos os níveis: trabalhista, previdenciário, petróleo, agrário e educacional. Para citar aqui as áreas atualmente mais atacadas pela sede de lucro do capital que maneja como é sabido, o ilegítimo governo Temer.

* Aderson Bussinger. Advogado Sindical, Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais/UFF, colaborador do site TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical. Conselheiro da OAB-RJ (2016/2018), Diretor do Centro de Documentação e Pesquisa da OAB-RJ, membro Efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB.