18.4.17

O DEUS ENCARNADO NO BOTEQUIM

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Em tempos de patrulha, siricoticos, escolha do inimigo errado, receios de melindrar alguém e certezas padronizadoras, rolou aqui, pela décima vez, a pergunta (feita com educação, diga-se) que eu já esperava: como é que eu, da turma do tambor, de Ifá e outras giras cruzadas, posso falar de Sábado de Aleluia, de Cristo, da Paixão Segundo São Mateus e da Páscoa?

Acontece que eu também sou cristão, é claro. E sou chegado numa macumba. De vez em quando viro ateu (uma outra maneira de acreditar em certezas provisórias), o que não me impede de cumprir os ritos, mas continuo macumbeiro e cristão ao meu modo, é evidente. Ser da nossa aldeia, essa circunstância extremada que é o Brasil, sem ser um pouquinho cristão é quase uma impossibilidade.

Costumo por conta dessas coisas me comover profundamente com as festas cristãs desde garoto: o Círio de Nazaré, a Festa da Penha, a Paixão... Amo as celebrações em que os cantos, louvores, silêncios, comidas, leilões de prendas, namoros, cheiros e bordados, falam de afetos celebrados que permitem a subversão- pelo rito - da miudeza provisória da vida.

O meu Jesus Cristo é o dos presépios coloridos, das bandinhas de pastoris e lapinhas do Nordeste, dos enfeites formosos das moças dos cordões azul e encarnado, das folias que alumbram de brasilidades os fuzuês que, no mês de janeiro, homenageiam - entre cachaças, cafés e bolos de fubá gentilmente servidos pelos donos da casa - os Reis do Oriente. É exatamente o Jesus Cristo que desfilou na Mangueira em 2017.

Combinemos assim e ninguém fica melindrado: eu sou do Cinco-Salomão, do fundo do tacho, do Vajucal, da Onça-Tigre, da serpente que lambe mel, das igrejinhas caindo aos pedaços, dos terreiros de terra batida. Lido com isso, sinceramente, da forma mais simples do mundo.

Noves fora, ritualizo a minha vida, tento encantá-la, para suportá-la com perseverança, o tempo todo e só consigo conceber a devoção como um exercício de liberdade, beleza e alegria. Mundanamente, fraternalmente, como nessa gravação em que, entre copos de cerveja e umas cangebrinas, os amigos celebram no botequim o mistério do Deus encarnado com a canção mais bonita do mundo.


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NOVE VERDADES E UMA MENTIRA

Estou tão impactado com as aventuras das amizades que resolvi contar NOVE VERDADES E UMA MENTIRA sobre mim. Apontem aí a mentira e sintam como a minha vida tem sido repleta de incríveis emoções. Lá vai:

1- Nunca escalei o Everest.
2- Nunca fui preso.
3- Não atravessei a nado o Canal da Mancha.
4- Nunca fiz gol no Maracanã.
5- Nunca tomei suco de mamão com o Dalai Lama.
6- Não tomei um porre com o Detetive Perpétuo e nem vi o Cara de Cavalo matar o detetive Le Coq.
7- Nunca fiz striptease numa taberna da Andaluzia.
8- Jamais participei de uma bacanal na base do Kilimanjaro.
9- Jamais andei de pedalinho em Paquetá.
10- Nunca tomei uísque com o Dr. Castor de Andrade numa reunião do Tribunal Barão de Drummond que culminou com uma troca de tiros com vítimas fatais.

*Via Facebook do autor