9.4.17

O MARACANÃ ERA A CIDADE (Não é só sobre futebol)

LUIZ ANTONIO SIMAS -


O Maracanã, aquele que morreu de morte matada, talvez tenha sido a maior encarnação, ao lado das praias e do carnaval de rua, de certo mito de convívio cordial, ao mesmo tempo sórdido e afetuoso, feito de flor e faca, da cidade do Rio de Janeiro.

O Maraca foi pensado, em 1950, para ser frequentado por torcedores de todas as classes sociais, mas não de forma igualitária. O estádio foi espacialmente dividido, como se cada torcedor tivesse que saber qual é a sua posição na sociedade: os mais pobres na geral, a classe média nas arquibancadas, os mais remediados nas cadeiras azuis e os engravatados em suas cadeiras cativas.

Havia algo de perverso na antiga geral. Dela praticamente não se via o jogo. Sem visão panorâmica do campo e noção de profundidade, o torcedor ficava em pé o tempo inteiro. Além disso, o geraldino corria o risco permanente de ser encharcado pela chuva e alvejado por líquidos suspeitos - da cevada ao mijo - e outros objetos que vinham de cima.

Esta fabulação de espaço democrático que era o antigo Maracanã, todavia, ainda permitia duas coisas que nos faziam acreditar em uma cidade menos injusta: a crença num modelo de coesão cordato, em que as diferenças se evidenciavam no espaço, mas se diluíam em certo imaginário de amor pelo futebol; e a possibilidade de invenção de afetos e sociabilidades dentro do que havia de mais precário. A geral – o precário provisório – acabava sendo o local em que as soluções mais inusitadas e originais sobre como torcer surgiam. Todo geraldino teve o seu dia de gargalhar na cara da miséria e do impossível.

A geral era, em suma, a fresta pela qual a festa do jogo se potencializava da forma mais vigorosa: como catarse, espírito criativo, performance dramática e sociabilização no perrengue. Nó no rabo da tirana, em suma. O fim da geral, a rigor, poderia ser defensável, considerando-se a precariedade do espaço. O problema é que ele veio acompanhado de um projeto muito mais perverso: quem tinha que sumir não era a geral, mas os geraldinos. Manjam o "efeito colateral" que está na moda? É isso.

Na arena multiuso, como na cidade pensada a partir da lógica da vida como empreendimento empresarial de gestão, interessa um público restrito, selecionado pelo potencial de consumo dentro dos estádios e pelos programas de sócios torcedores. Facilita-se assim a massificação das transmissões televisivas por canais a cabo. Os sobreviventes e as sobrasviventes estão fora desse compasso.

O fim da geral foi, enfim, o símbolo do esfacelamento de um pacto de cordialidade que usou o manto do consenso para desenhar simulacros de democracia na cidade. Mas até isso já era. Prevalece agora a lógica da exclusão explícita.

Que diabos fazer? A nossa tarefa não é resistir apenas. É reexistir mesmo; reinventar afetos dentro ou fora das arenas (inclusive dessa arena descortês aqui) e encontrar novas frestas para arrepiar a vida de originalidades, reencantos e gritos, amados, suados, deseducados, cheirando a mijos e flores delirantes, de gol.

l.a.s.

ps: esse texto vai na intenção de um abraço forte no meu camarada Lucio de Castro.

ps 2: esses putos não vão, nem fudendo, matar o meu amor pelo futebol.

* Via Facebook do autor