20.4.17

PEDRINHAS, SINCRETISMO, OGUM E GOL

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Um dos meus livros - o Pedrinhas Miudinhas - é sobre o sincretismo como possibilidade de Brasil. Composto de textos pequenos, escritos entre 2007 e 2011, promove o encontro entre Exu e Jackson do Pandeiro, a Uiara e Cantuária (jogador do São Cristóvão), Ogum e Noel, Cabocla Mariana e a Virgem de Nazaré, o presidente Juscelino Kubitschek e o boiadeiro Madureira, Walter Benjamin e Seu Joãozinho da Goméia, Homero e Seu Sete da Lira . Fala do botequim como Ágora e imagina a cidade como terreiro. É um livro que me alegra e me dá um retorno afetivo enorme. Abriu caminho.

Em todos os textos, a encantaria como possibilidade de aproximação com o mundo se apresenta; do estádio de futebol à beira do São Francisco. O fundamento da prosa é a minha crença de qualquer povo tem o que os bantos chamam de mooyo, a energia vital (os iorubás diriam que é o axé) que pode estar presente em tudo.

Para os congos, incorporar símbolos, ritos, crenças, entidades e valores de outros povos pode significar aumento do nosso próprio mooyo, sem que isso represente o abandono das nossas crenças originais. Desde que proporcionem saúde, fecundidade, estabilidade, harmonia e prosperidade, todas as experiências de acúmulo de força vital são benéficas. Somente quando produzem efeitos contrários é que devemos escapar delas.

Entre os povos do Daomé, os deuses, os rituais e as devoções, são dotados de impressionante flexibilidade. O culto aos voduns se transforma, adquire novas dinâmicas e novos significados incessantemente, em diálogo constante com as circunstâncias. A capacidade de se apropriar de objetos alheios e interpretá-los segundo valores e preceitos locais, em determinadas conjunturas, dando a estes deuses e seus ritos novos significados e representações, é um traço distintivo da potência das crenças africanas. Voduns como Dan e Azowanu, por sua vez, foram incorporados ao panteão iorubá.

A incorporação de força vital é fundamento de práticas rituais e concepções de fé entre os povos, fenômeno que no Brasil adquiriu feições potencializadas pela crioulidade da diáspora. São Jorge abraçou Nkosi-Mukumbi, que abraçou Ogum, que me abraçou.

Vejo, portanto, o sincretismo como acúmulo de força vital. Ele é fundamento potente de se encarar a vida como empreendimento inventivo e generoso de contato e abertura para a pluralidade das culturas, manifesta na ritualística das divindades que circulam, adquirem fluidez, se aproximam e estabelecem um amálgama encantado como forma possível de se estar em qualquer lugar do mundo.

É disso que falo, é sobre isso que escrevo quando conto um caminho de Exu pela encruzilhada, descrevo o rodopio da porta-bandeira na avenida, como um torresmo na esquina, bebo uma cu de fica, me benzo com a água benta e deliro com a bicicleta do centroavante num jogo que não vale nada.

Essa é a macaia de onde invento a vida.

*Via Facebook do autor