22.5.17

O BODE EXPIATÓRIO, O BOI DE PIRANHA E O PRIMO FRED

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Acho que as amizades conhecem a origem da expressão "bode expiatório". Ela está no Levítico. Conta o livro que no "dia da expiação" os hebreus faziam rituais purificadores dos males, culpas e pecados do povo. Era aí que entravam em cena dois bodes, submetidos a sorteio. Um deles era sacrificado, junto com um touro, perto das paredes do Templo de Jerusalém (a turma do Antigo Testamento era bem chegada numas cerimônias quimbandeiras de obtenção do axé, diga-se).

O outro bode, o expiatório, tinha a função ritual de carregar os pecados da comunidade. O sacerdote levava as mãos até a cabeça do animal para que a ele fosse simbolicamente transmitida toda a carga de culpas do povo. Depois disso, o chifrudo era abandonado no deserto, ferrado de dar dó, para que os perrengues, os pecados e a influência dos demônios ficassem bem afastadas.

Já o "boi de piranha" é coisa nossa. Refere-se a uma estratégia dos tocadores de boiada, que sacrificam um touro fraco , jogado aos peixes carnívoros, enquanto os outros, os mais robustos, passam tranquilamente para o outro lado da margem de um rio perigoso. As piranhas acham que o boi fraquinho é o protagonista da boiada e papam o bicho sem a menor cerimônia.

Pois eu acho que essa barafunda toda em que estamos metido no Brasil pode, ao menos, criar uma nova expressão popular, na linha do bode expiatório e do boi de piranha: Primo Fred. Explico.

Conversas gravadas pela Federal mostram que o Primo Fred, encarregado por Aécio Neves para pegar as malas de dinheiro da JBS, disse coisas como: "outro dia eu tava pensando, acordei à 0h30, o que eu tô fazendo? O que eu tenho com isso? Eu não trabalho para o Aécio, eu não sou funcionário público, eu sou empresário. Trabalho pra caralho, Ricardo". Aí o tal de Ricardo, o sujeito da mala, tenta acalmar o cabra: "É, mas eu não gosto também, não". Primo Fred volta à carga: "Sim, mas você é o homem de confiança do Joesley, você tem razão de estar aqui. E eu, e eu, cara? O que eu ganho? Rosca. Eu só tenho a perder."

O Primo Fred, de fato, foi em cana.

Imaginem só. Daqui a cinquenta anos, um sujeito acaba entrando na maior furada como um coadjuvante que subitamente se vê no meio de um fuzuê e paga o pato, mais perdido que o David Luiz balançando a cabeleira depois do quarto gol da Alemanha no 7X1. Ao invés de dizerem que o cara foi um bode expiatório, as futuras gerações dirão: esse aí acabou sendo o Primo Fred da parada.

Ao falarmos de alguém que foi em cana, quando um outro mais poderoso - o autor intelectual do crime - se esbalda comendo caviar ou é um sicofanta mafioso hospedado em hotéis no exterior, não diremos mais que fulano entrou de boi de piranha na história. Diremos algo como "esse aí entrou de Primo Fred na bagaça".

O Primo Fred, aquele que ganhou a rosca, é um pequeno grande personagem da nossa mistura de hospício, prisão e circo. (Fonte: facebook)