28.5.17

O BRASIL ENTRE EXU E OXALUFÃ

LUIZ ANTONIO SIMAS -

Como analista político, eu sou mesmo é macumbeiro. Trago aqui uma proposta de intervenção nos debates sobre nossos dias tensos e temerários.


I- OXALUFÂNICO

Oxalufã é o orixá que tem como positividade a paciência, método, ordem, retidão e cumprimento dos afazeres. Tudo que é contrário a isso representa a negatividade que pode prejudicar seus filhos.

Diz um mito de Ifá que, quando se desviou da missão a ser executada e tomou um porre de vinho de palma, Oxalufã quase comprometeu a própria tarefa da criação do mundo. Em outra ocasião, quando também tentou agir por instinto e teimosia, não seguindo a recomendação do babalaô, Oxalufã foi preso ao fazer uma viagem ao reino de Xangô, acusado injustamente pelo furto de um cavalo. Curtiu uma cana de sete anos.

A dança de Oxalufã é solene, marcada pelo ritmo lento e constante dos atabaques. Apoiado em um cajado, coberto por um pano branco, ele exige respeito e é reverenciado por todos os orixás.

Oxalufã é, enfim, o maestro de solenidades, que não toca sem partitura e não quer firulas que driblem o rigor bonito e sério do que vai escrito na pauta.

II- EXUSÍACO

Exu vive no riscado, na fresta, na casca da lima, malandreando no sincopado, desconversando, quebrando o padrão, subvertendo no arrepiado do tempo, gingando capoeiras no fio da navalha. Exu é o menino que colheu o mel dos gafanhotos, mamou o leite das donzelas e acertou o pássaro ontem com a pedra que atirou hoje; é o subversivo que quando está sentado bate com a cabeça no teto e em pé não atinge sequer a altura do fogareiro. Exu é chegado aos fuzuês da rua. Mas não é só isso e pode ser o oposto a isso.

III - O Oxalufânico e o Exusíaco não são opostos, em dicotomia estática. Oxalufã, a retidão, tentou burlar o ebó no processo de criação do mundo. Exu, o desregrado, é também o que fiscaliza o cumprimento das regras. Foi ele que pregou peças em Oxalufã quando percebeu que este não estava cumprindo os deveres da criação conforme o que fora estabelecido por Olodumarê e revelado por Ifá. Oxalufã pode ser exusíaco e Exu pode ser Oxalufãnico. Oxalufã não quer fazer ebó.

Exu pune quem não faz o ebó marcado. Viver o exusíaco e o oxalufânico demanda reconhecimento de qual impulso nos levará, em determindada circunstância, a trilhar o ona buruku (mal caminho) ou o ona rere (bom caminho).

IV - O momento brasileiro exige ações exusíacas, potencialmente desestabilizadoras da ordem normativa, de forma dobrada: há que se ter o poder da travessura e o rigor do implacável fiscal do desvio da norma para se trilhar o ona rere. Oxalufânicos trilhando o ona buruku foram o governo que caiu no ano passado (não fez o ebó combinado e adotou caminhos de dispersão do axé que inviabilizaram a criação) e o que subiu (descumpriu a regra e não tem, por isso, a legitimidade ou o axé conferido pelo poder do ebó para seguir na tarefa criadora; já que o signo com o qual trabalha é o da destruição).

V - Neste momento, portanto, o exusíaco aponta o bom caminho e o oxalufãnico aponta o caminho negativo. A luta é para inviabilizar o governo buruku e fazer o ebó que abra caminhos para uma invenção de Brasil capaz de potencializar tudo que nos conduza, de forma não oposta ou mecânica, ao equilíbrio entre a conduta firme do caminho reto de Babá e a travessura encruzilhada, brincalhona e implacável de Elegbara.

Acho que é isso. (via Facebook)