3.6.17

A ECONOMIA AO SABOR DO CHARLATANISMO DOS ECONOMISTAS E DO GOVERNO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


A retomada da economia brasileira já não depende da política econômica. Depende de uma entidade metafísica chamada “confiança” do empresariado. Isso, por sua vez, move-se para cima ou para baixo segundo as tendências do Congresso em aprovar ou não as reformas trabalhista e previdenciária. Se você achar que se trata de puro charlatanismo, vai em frente. Ligue a televisão e se pergunte: a quem interessa tanta manipulação da opinião pública pela imprensa, tanto cinismo, tanta tomada de posição estritamente classista?

É patente que o empresariado interessado em abocanhar o mercado da previdência e reduzir na marra os custos do trabalho para expandir o lucro encontrou no golpe de Temer uma oportunidade ímpar para romper o contrato social histórico do Brasil . Para acobertar isso com um véu de neutralidade, recorreu aos economistas e intelectuais mais sabujos, mais entreguistas, mais venais a fim de defender abertamente suas posições no Congresso e na imprensa. Você nunca os verá assumir o que são. Escondem-se sob o nome de “professores”.

Vou falar num dos intelectuais mais ativos na defesa do que ele chama de “minirreforma trabalhista”, pelo que insinua que deveria ser mais ampla. É Hélio Zilberstein. Eu o conheci como sócio de José Pastore numa consultoria do trabalho em São Paulo. O Pastore aparecia mais, enquanto Zilberstein ficava na retaguarda. Trabalho principal? Assessoria da Fiesp, acumulada com assessoria da CNI e ao grupo Votorantim. Sabe como Zilberstein se apresentou numa comissão do Senado? Professor aposentado da USP!

Em seu site, Pastore diz que “recuperação do país depende da aprovação de reformas essenciais”. Pastore não é economista, é sociólogo. Não me incomoda de forma alguma o fato de que muitas pessoas não economistas falem sobre economia. O que me incomoda é o charlatanismo, por exemplo próprio de não economistas como Henrique Meirelles, mas algo que acontece também com economistas, a exemplo de outro depoente menor na comissão do Senado, José Márcio Camargo. Este não importa muito porque suas palestras aos gritos, de tão chatas e baseadas em clichês, servem para espantar mais do que para atrair.

Se quiser um bom paradigma para distinguir nessa matéria um charlatão de alguém sério, verifique os argumentos centrais. Se o sujeito examina os pontos da reforma e manifesta sinceramente seus pontos de vista, merece ser ouvido mesmo que tais pontos de vista sejam contrários aos nossos. Mas se o cara disser que se o Congresso não aprovar as reformas a economia nunca vai crescer, ponha seu chapéu e deixe-o falando sozinho. É um rematado charlatão.

A imprensa, na verdade, estimula o charlatanismo, quando não o assume diretamente. Veja o que acaba de acontecer com o anúncio do PIB. Como dado bruto, houve um crescimento de 1% no primeiro trimestre do ano sobre o trimestre anterior. Poucos cuidaram em explicar, porém, que, dado o peso da agropecuária no PIB, de 5,5%, e o aumento do produto agropecuário de 13,% num trimestre de altas safras, o crescimento trimestral de 1% é irrelevante para se avaliar o desempenho da economia. Na verdade, quando se compara com o ano passado e se examinam os últimos 12 meses até março, a economia continua num situação de desastre, caminhando para o terceiro ano seguido de contração.

Isso, sim, se deve à política econômica. Não ao fato de serem aprovadas ou não as reformas!