10.7.17

OS DESTINOS DE LOURES E DE CUNHA EM TEMPOS DE DELAÇÃO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Loures provavelmente não fará delação premiada. É uma personalidade subalterna, grato pela confiança que lhe deu durante anos seu patrão Michel Temer, portanto consumido pela tensão entre as pressões da família, que o quer ver solto o quanto antes, e a lealdade ao chefe, que o quer calado. Ingênuo como parece ser, acabará pendendo para a lealdade, não obstante a perda de oportunidade que não se repetirá. É que o destino de Temer será definido sem sua participação.

Cunha provavelmente fará delação premiada. Não tem nenhum caráter. Sua lealdade é consigo mesmo na condição de uma dos maiores ladravazes da República, manipulador de cargos públicos, de emendas parlamentares e de contratos oficiais em benefício próprio. Comprou quase uma centena de parlamentares na Câmara para por em marcha um processo de impeachment ilegítimo, sem qualquer justificativa e sem qualquer escrúpulo político. Não tem lealdade a ninguém; tem clientela.

Foi um dos políticos sujos brasileiros que mais contribuiu para o aprofundamento da crise econômica e para o caos político em que estamos vivendo. Seu rosto e seus trejeitos denunciam, na aparência, o crápula que é. Não conheço na história da República nenhum personagem que tenha contribuição maior para a decadência política brasileira. Agiu como um mercador de votos para dar suporte ao assalto aos cofres públicos para si e para seus comparsas.

Estranhamente no nosso mercado de delações, Cunha muito provavelmente se sairá melhor que Loures. Este é simplesmente um idiota. Levou uma mala de dinheiro que não lhe pertencia. Já Cunha se apropriou pessoalmente de milhões de reais em dinheiro público. Se Loures fosse esperto, mandava às favas a lealdade e entregava Temer. Se não fizer de nada valerá seu depoimento posterior, com ou sem delação, com ou sem Temer. Entretanto, se não for pela família, certamente permanecerá calado.

Já Cunha tem na ponta da caneta a espada da vingança em relação a desafetos de sua própria laia. Eles que se entendam. Se a cabeça de Rodrigo Maia valer alguns anos a menos para a cadeia de Cunha, que desçam dos céus os anjos vingadores. Cunha e Maia se valem. Não tem nem mesmo o princípio de lealdade da máfia. Mesmo que não apodreçam na cadeia, inevitavelmente sofrerão a prisão perpétua da eterna desonra e do definitivo asilo da política.

Ocorre-me, porém, que dados os procedimentos da Procuradoria Geral da República, Loures já tenha prestado sua delação. A Procuradoria costuma guardar na gaveta por alguns dias e mesmo meses delações premiadas, a fim de explorar o impacto de sua publicidade. Da forma como saiu da cadeia, Loures, o mais abatido dos presos que lá estiveram, tinha a expressão da suprema humilhação. Dificilmente diria que é um bandido. Ao contrário, é um pai de família manipulado por Temer. Se for assim, Temer está com os dias contados.