21.8.17

JACAREZINHO E A "GUERRA AO TRÁFICO". MORADORES FAZEM PROTESTO E PEDEM O FIM DOS CONFLITOS DE SANGUE

ALCYR CAVALCANTI -


O Jacarezinho é considerado um bairro desde 1992, mas tem ainda na maior parte de seu território características de uma favela. Com população estimada em 70 mil moradores tem uma via férrea em suas proximidades e uma das vias mais usadas Avenida Don Helder Câmara. É considerada uma das "Zonas Vermelhas", conceito formulado pelo general Nilton Albuquerque Cerqueira quando de sua passagem como secretário de segurança, conceito oriundo da  Escola Superior de Guerra-ESG para rotular regiões de alta periculosidade. Em outubro de 2012 foi implantada uma Unidade de Pacificação-UPP, mas que nunca conseguiu realizar sua finalidade que foi implantar a paz entre os moradores e os bairros limítrofes. A continuação do projeto de pacificação era implantar a UPP Social, que na realidade nunca saiu do papel, embora organismos internacionais em um Congresso em Medellin, Colômbia tenham premiado o projeto e seus responsáveis.

Desde os anos 70 que a Favela do Jacarezinho abriga um núcleo de violência, que não é uma característica somente da favela, mas de várias regiões da cidade do Rio de Janeiro. Um grupo de bandidos denominado Falange do Jacaré, oriundos da região, dominavam a ferro e fogo o presídio da Ilha Grande explorando outros presos quando após uma noite sangrenta foram exterminados por um outro grupo, que passou a dominar não só o presídio da Ilha, mas os outros estabelecimentos prisionais, a Falange Vermelha, embrião da rede criminal Comando Vermelho que apesar da concorrência ainda é a maior rede criminal do estado. Estima-se que mesmo com a implantação de uma UPP o narcotráfico, leia-se o CV, domina boa parte de seu território com mais de duzentos "soldados" muito bem armados, e um número incontável de colaboradores, alguns pelo fascínio das armas e outros pelo medo de serem hostilizados. Parte da população, mergulhada em um total abandono pelos governantes admira e mesmo em alguns casos idolatra os eventuais "donos do morro" como seus heróis, como no caso só para citar um exemplo de "Meio Quilo" cultuado até hoje como um verdadeiro herói. Paulo Roberto Moura, o Meio Quilo, ficou conhecido ao chefiar o tráfico tendo por base o Jacarezinho. Ele pertencia ao Comando Vermelho e formava um trio com seus amigos Gregório, o Gordo e José Carlos Reis Encina, o Escadinha e ganhou muita notoriedade  ao ter um caso amoroso de grande repercussão na época com a bela jovem Maria Paula que era filha de um vice-governador. Meio Quilo tentou uma fuga espetacular da Frei Caneca em 1987, seria resgatado por helicóptero que foi abatido a tiros. Foi levado muito ferido para o Hospital Souza Aguiar, morreu horas depois. Era idolatrado pelos  moradores e seria eternizado com uma estátua comemorativa para ser sempre reverenciado pelos locais. Mas a homenagem foi reprimida e a estátua foi destruída pelo aparelho policial após um intenso conflito.

No Réveillon de 1988/1989 fui designado pelo jornal O Dia para fazer uma cobertura de como se diverte um morador do Jacarezinho na passagem do ano. Eu, a repórter e o motorista fomos escorraçados, apesar da tentativa de dialogar. Se fosse hoje, nos tempos cinzentos do século XXI não estaria aqui ao escrever essas linhas. Teria sido executado. Os tempos são outros. A descrição da aventura de cobrir um final de ano em uma favela sem nada ter sido acertado está descrito em post no blog Insider2  com o título "Um Réveillon no Jacarezinho" em postagem recente.

O Jacarezinho pode ser analisado como uma implantação de um projeto em uma grande favela pode não atingir seus objetivos. Aqui a pacificação não veio e a violência tem atingido índices insuportáveis há algum tempo. Os confrontos tem sido diários com muitas vítimas entre mortos e feridos, principalmente depois da morte do policial civil da CORE Bruno Guimarães Buhler em uma incursão policial. Invasões pelas forças de segurança tem se sucedido para prender os assassinos do policial. Tem havido forte resistência dos narcotraficantes que estão espalhados pela imensa favela plana, ao redor do rio Jacaré, que corta boa parte do Jacarezinho e ainda recebem um apoio de homens e armas dos aliados da vizinha Favela de Manguinhos, dominada pela mesma rede criminal.  Moradores falam que a "Operação Jacarezinho" é uma vingança policial pela morte de Bruno, muito querido por seus muitos amigos  e que as invasões vão causar muitas mortes de pessoas inocentes que só querem viver suas vidas sem ser ameaçados. A quase totalidade dos moradores só espera  poder sair para seus locais de trabalho e poder voltar em paz para suas casas à espera de dias melhores que nos seus pensamentos terão de vir, nem que seja em um futuro tardio.