12.9.17

A “GUERRA DO RIO” UM GRANDE EQUÍVOCO

ALCYR CAVALCANTI -

Uma política equivocada que não tem conseguido resultados esperados. A Guerra contra as Drogas fracassou, deixando em seu rastro consequências devastadoras para pessoas e sociedades em todo o mundo.


Relatório da Comissão Global de Políticas sobre Drogas de 2011.

O jornal Extra, de grande circulação que transita preferencialmente nas classes populares resolveu lançar a “Editoria de Guerra”, segundo seus editores devido à intensidade crescente dos conflitos que tem ocorrido no Rio de Janeiro, em especial na Cidade Maravilhosa existiria uma “Guerra do Rio”. Em realidade não existe uma guerra, o que de fato acontece é uma política equivocada exclusivamente bélica que não tem atingido resultado algum. O que tem existido são conflitos de sangue que aumentaram em uma progressão geométrica principalmente depois do término dos Jogos Olímpicos 2016 e do desmantelamento das Unidades de Pacificação-UPPS que cumpriram sua tarefa, isolar as “Zonas Vermelhas” das festividades programadas como a visita do Papa, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos e dar a impressão de paz e tranquilidade para os milhões de turistas que vieram à cidade. O termo “guerra” é usado como uma equivocada política contra as drogas a nível global, e grande parte da imprensa a nível mundial e agora a nível local dão uma falsa informação que a ninguém interessa.

O aumento da violência urbana e a crise na segurança agravada depois de alguns fatores políticos como o impedimento da presidente Dilma, um golpe com aparência de legalidade, da falência econômica do Estado do Rio de Janeiro somado a um grande número de desempregados e da falta de perspectiva dos jovens quanto ao seu futuro. A esses fatores veio a somar a entrada da rede criminal Primeiro Comando da Capital-PCC, oriunda de São Paulo mas que se espalhou a todo o Brasil e começa a lançar seus tentáculos no Paraguai. O PCC depois de um rompimento com a rede criminal Comando Vermelho-CV provavelmente pelo controle das rotas de narcotráfico resolveu fazer uma aliança cooperativa com uma facção criminal que tem tido grande expansão no estado, a Amigos dos Amigos-ADA, oriunda do Comando Vermelho e atualmente sua maior rival.

A luta pelo domínio de território e do controle dos pontos de venda drogas, a varejo, “bocas de fumo” tem causado um desequilíbrio na relação de forças e também levado a uma reconfiguração do narcotráfico no Rio de Janeiro. As invasões territoriais acontecem diariamente em quase todo o país, em nosso estado, e principalmente em toda a cidade do Rio de Janeiro. O crime que era extremamente desorganizado com a entrada do PCC passou a se organizar em áreas de seu domínio. São três redes criminais no estado que disputam território: O Comando Vermelho, Amigos dos Amigos e Terceiro Comando-TC. As duas redes vieram como dissidência do CV, a mais antiga delas, formada na Ilha Grande nos anos 70. Como se não bastasse mais uma rede criminal foi criada, atuando preferencialmente na Zona Oeste, estimulada ou pelo menos sob a complacência do aparato repressivo estatal, as Milícias. O Estado do Rio de Janeiro vive uma situação sui generis, onde convivem o crime organizado e o crime desorganizado, que formam situações de conflito com resultados funestos. Em diversas situações os “chefes de morro” castigam severamente pequenos assaltantes, o chamado “bandido porco”, ou seja, aquele que assalta qualquer um em qualquer lugar, inclusive os próprios moradores. O castigo pode ser desde tiros na mão até a execução no “micro-ondas”. O castigo funciona como exemplo a quem não respeita o código de conduta. O CV em sua formação criou normas de procedimento bastante rígidas, uma espécie de decálogo. O PCC adota algumas destas regras.

O narcotráfico imita o estado, até porque em nosso sistema faz parte dele. Da mesma forma que “cabeças” são colocadas a premio em cartazes oficiais ao estilo Velho Oeste oferecendo recompensa em dinheiro, os narcotraficantes também estabelecem um “premio” pela morte de policiais. No jargão criminal “É tocar o terror”, palavra de ordem nas regiões dominadas pelo tráfico. A “Guerra do Rio “é a versão local da “War on Drugs” termo criado por Richard Nixon e incrementada pelo Governo Reagan nos anos oitenta como uma estratégia geopolítica que teve na América do Sul seu laboratório na Colômbia e o alvo preferencial o Cartel de Medellin e seu mentor Pablo Emílio Escobar Gavíria, que chegou a ser dono de uma das maiores fortunas do mundo. Com a morte de Pablo Escobar e de seus sócios, o narcotráfico não acabou, mas modificou seu modo de atuação com uma pulverização do tráfico e o fortalecimento de seu maior concorrente o Cartel de Cali.

O aumento do consumo de drogas em todo o mundo e o aumento de mortes em confronto das forças dos soldados oficiais contra os “soldados do movimento” tem demonstrado que a estratégia do combate às drogas tem fracassado. O relatório da Comissão Global de Política Sobre Drogas pede reformas urgentes nas políticas nacionais e globais pelo controle às drogas e medidas imediatas são necessárias. Os imensos recursos, da ordem de bilhões de U$ dólares gastos na erradicação da produção, na repressão aos narcotraficantes e a criminalização dos usuários não foram capazes de reduzir a oferta nem o consumo de drogas afirma o relatório.