19.9.17

SITIADOS EM “LAGOS, NIGÉRIA” E FAVELAS, RIO DE JANEIRO

RUMBA GABRIEL -

Daniel Mazola e Rumba Gabriel. ABI, dez.2014 / Foto: Iluska Lopes.
Fica cada vez mais claro que a presença dos tambores, são também para expandir a nossa comunicação, assim como ritmar fortalecendo nossa resistência.

Sitiados em Lagos é um livro escrito por Abdias do Nascimento em forma de denúncia e protesto às manobras orquestradas pela representação oficial (Itamaraty) do governo brasileiro na Nigéria em 1977.

A leitura do genocídio do negro brasileiro abri-nos os olhos sobre o processo de um duplo genocídio que visa através da miscigenação e da imposição de uma cultura hegemônica eurocêntrica a exterminar física e culturalmente o negro da terra que constrói. É o que entendemos por embranquecimento.

O que separa a Rocinha do Jacarezinho é um túnel e o que nos une, é sermos todos favelados. Com certeza, isso soa mais forte diante do sistema, pois o processo de isolamento, de gueto, de cultura do medo é o mesmo.

Ontem nós tínhamos Abdias, Milton Santos, Caó. Hoje somos poucos graças às resistências de Marcelo Dias, Ivanir, Luiz Eduardo e algumas bravas lideranças das favelas. Graças a estas, é que ainda continuamos a construir trincheiras para nos abrigar parcialmente deste extermínio.

Há poucos dias atrás, a morte de um policial gerou um clima de vingança na segunda maior favela do Rio – o Jacarezinho. A polícia precisava dar uma resposta diante de uma visibilidade midiática que a sociedade burguesa cobra a todo instante. Nada em investimento social, cultural, preventivo e um sistema de inteligência adequado, sincero. Mais respostas punitivas não faltaram. Todo um aparato de guerra foi montado e as tropas federais invadiram a favela inclusive, com tanques de guerra. Ora, o inimigo mora ali, somos nós. Foram sete mortos e ainda tem uma pessoa internada. Ou seja, o povo negro, pobre favelado pagando sem ter culpa. Sitiados na favela do Jacarezinho.

Agora foi a vez da Rocinha. A maior favela do Rio de Janeiro. Motivo da invasão? Briga de facções rivais. Crianças sem aulas, postos de saúde e comércios fechados, transportes públicos parados. Todos trancados em suas casas. Os únicos prejudicados? Os moradores. No Jacarezinho o massacre só parou porque as poucas resistentes lideranças gritaram e culminou com uma Audiência Pública na ALERJ. Já na Rocinha, paralisou porque ali naquele território se soltar um pum na estrada da Gávea, vai feder nas mansões das quadrilhas do Congresso. Afinal, ali é exatamente o limite entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca. Podemos observar que estamos literalmente submetidos a dois Tribunais. Um o Tribunal de justiça o qual nos condena e abarrota o sistema prisional. O Outro, o Tribunal de Exceção. Este a própria Constituição proíbe em seu inciso XXXVII – Não haverá juízo ou tribunal de exceção.

A grande realidade é que neste mar de violência encontram-se nos rochedos em forma de mariscos, os negros, pobres, favelados. Todos sitiados em “lagos favelas”.