7.10.17

A DITADURA VIVIDA POR DENTRO E POR FORA

ANDRÉ DE PAULA -


Erram aqueles que clamam pela volta da Ditadura Militar. Ou são loucos, ou mentirosos, ou estão iludidos por propaganda enganosa. Vivi aqueles tempos terríveis, onde nunca se roubou tanto, torturou, matou e se desapareceu com pessoas, onde, inclusive, não se podia denunciar nada, pois existia uma censura total.

Papai, udenista e golpista de primeira hora, julgava estar prestando um serviço à nação ao participar da ação empresarial militar, doutrinado que foi, sempre, na Igreja Católica conservadora e nas escolas militares, no anticomunismo doentio.

Mais tarde, eu, minha irmã Regina Coeli e cunhado Daniel Manoel, resolvemos nos engajar enquanto agentes de Pastoral da Igreja  Católica de Conceição do Araguaia, Sul do Pará.

Enviados pelo Bispo para São Geraldo, onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia, nos defrontamos com a luta pela terra, baseada em São Tomás de Aquino que dizia que “a terra é de quem nela vive e trabalha”.

O Governo Militar ficava sempre do lado dos grileiros e grandes fazendeiros contra os posseiros pobres, se confrontando com a máxima de São Tomás que se baseia no Evangelho de Cristo.

Fomos presos e torturados após ajudarmos a organizar a luta dos posseiros, o que levou papai a romper com o regime. Constatou ele, também, que as torturas a nós inflingidas não era fato isolado, e sim, prática contumaz. Não fosse ele, teríamos sido assassinados, pois nos acompanhou de sua casa, para onde nos refugiamos após a fuga que empreendemos do sul do Pará e onde fomos presos, até o Batalhão da PE e de lá para Belém onde chegou, inclusive, a desacatar o General Euclides Figueiredo, irmão do ex-Presidente e seu ex-aluno, Coronel Ernane Guimarães que comandaram nossas torturas.

Não parou por aí. Denunciou o nosso caso à presidência da CNBB e ao Cardeal Eugênio do Rio de Janeiro que gozava de prestígio junto aos militares. Pagou, inclusive, meu INSS, para que eu pudesse me aposentar. Quem iria procurar um advogado considerado subversivo e perseguido pelo sistema? Os escândalos envolvendo os militares foram enormes, só que abafados, como os casos CAPEMI – CAIXA DE PECÚLIO DOS MILITARES, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, Grupo Delfim, Projeto Jari, Coronel Mário Andreaza envolvido em superfaturamento nas obras da Ponte Rio-Niterói e rodovia Transamazônica. Além disso, outros grandes ladrões civis cresceram protegidos pela Ditadura: Sarney, Maluf, Antônio Carlos Magalhães, entre outros. Como esperar moralidade de uma instituição que abrigou torturadores, estupradores, ocultadores de cadáver, terroristas, corruptos e ladrões de toda laia. Só de indígenas, as Forças Armadas mataram mais de 3 mil, fato ainda pouco conhecido, mas registrado no relatório Figueiredo.

Infelizmente, os Governos de Lula e Dilma nada fizeram para acabar com a mentalidade golpista e fascista da maioria das Forças Armadas, principalmente, em seu alto escalão. O General Antônio Amilton Mourão revelou que as Forças Armadas tem um Golpe Militar preparado, sendo que, o Comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, Comandante do Exército, além de não punir o militar subalterno, teceu loas à Ditadura Militar, mencionando o famigerado artigo 142 da Constituição Federal de 1988.

As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o “caos”, elas foram parte fundamental do “caos”.

Imaginem o senhor Rodrigo Maia fazendo um apelo às Forças Armadas para acabar com o caos, baseado no artigo 142 da Constituição Federal. Outro Golpe estaria legalizado. Só que, apesar de o “caos” estar instalado, chamar as Forças Armadas é a pior das saídas. Organizemos o povo pobre contra a barbárie que representa o Governo Temer ou a volta dos militares, cuja organização conheço na pele, por dentro e por fora.

* André de Paula é advogado da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), membro da Anistia Internacional, jornalista e membro da ABI – Associação Brasileira de Imprensa.