20.10.17

CARTA CAPITAL VIVE!


Campanha em defesa da Carta Capital é lançada no Rio de Janeiro. A publicação vive um momento de dificuldade financeira, como mostra o documento subscrito por intelectuais, jornalistas e movimentos social e sindical.

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia e jornalista Roberto Amaral observa o engenheiro e presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (Senge-RJ), Olímpio Alves dos Santos defendendo a importância de instrumentos alternativos de comunicação / Crédito: Daniel Mazola.
A reunião que juntou mais de cem pessoas no auditório da ABI, na noite da última segunda feira, 16, mostrou que são muitas as vozes dispostas a gritar e impedir que a Carta Capital saia de circulação. A revista se tornou símbolo de resistência à grande mídia tendenciosa e sectária que impera no país. Daí a proposta de fundação da Sociedade de amigos da Carta Capital, com o objetivo de reforçar a luta para acabar com o déficit de R$ 400 mil mensais e tentar regularizar um passivo da ordem de R$ 5 milhões.

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia, também jornalista, Roberto Amaral, abriu o encontro falando da importância da revista, “o que ainda resta de imprensa livre no país”, e da formação da sociedade dos amigos, que definiu como ato de resistência democrática. Agradeceu ao Senge, Fisenge, Modecon (Movimento em defesa da economia nacional) e ABI pelo apoio à realização do evento.

Em seguida, o consultor editorialista, Luiz Gonzaga Belluzzo, disse que essa resistência hoje é quase devoção. “Após a luta contra a ditadura, jamais imaginei que o Brasil pudesse sofrer uma degradação no debate público como está acontecendo agora.” Fez referência à censura e ao recente ataque aos museus de forma indignada. “Esse tipo de obscurantismo me choca extremamente! Vivemos um remake da Marcha da família!” E ainda comentou que as pessoas querem a assinatura impressa, o que denota o necessário “sentido de permanência” e torna a Carta Capital uma “trincheira indispensável”.

Uma “ trincheira mais modesta” propôs o presidente do Modecon, Lincoln Penna, prometendo transformar as reuniões das segundas-feiras do grupo em defesa da liberdade de imprensa e do princípio sagrado da soberania nacional e popular.

Na mesma linha, a deputada Benedita da Silva observou que “esse governo que está aí não aceita o contraditório” e é fundamental que a revista se mantenha. Contou que o ex-presidente Lula incentivou toda a bancada petista a prestigiar a Carta Capital. “À bancada da esquerda só resta assinar a revista. É a soberania nacional que está em jogo”, ratificou.

Ao lado da parlamentar, o contador Nelson Rocha, que atou no seu governo quando governadora do Estado, reforçou a ideia de uma sociedade sem fins lucrativos para o fortalecimento político, econômico e editorial da Carta Capital.

Organizar uma campanha de caráter nacional com braço no Rio de Janeiro, logomarca e o que mais for preciso, foi a proposta de Orlando Guilhon, da executiva do FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. “A mídia privada e corporativa mantém o golpe. Sem democracia na comunicação não reverteremos este quadro”.

Enquanto isso, Daniel Mazola, da Tribuna da Imprensa Sindical, se comprometeu a colocar um banner no site do jornal para divulgar o projeto de apoio à Carta Capital. “Leio a revista desde que foi criada, minha esposa é assinante, o conteúdo sempre foi produzido com lisura e dignidade, raro hoje em dia”, afirmou. Em outra ponta, o ator Jitman Vibranovski, que atua na comédia indignada, Marx baixou em mim, que tem o apoio da Carta Capital, contou que a recepção do público na Paraíba foi emocionante. “Muitas pessoas interessadas em discutir as questões do país. É preciso intensificar a campanha pela revista em todo o Brasil”, considerou.

E foi endossado pelo veterano jornalista Mário Jakobskind, que falou em chamar artistas e músicos, como Chico Buarque, para fazerem a campanha da revista, como na época da ditadura militar. A Professora do Colégio Pedro II e presidente da associação de Amigos do Programa Faixa Livre,  Lúcia Naegeli, disse que vivem o mesmo drama e que estava ali para prestar solidariedade. “Precisamos nos apoiar”. Ela sugeriu que se faça campanha nas escolas particulares. “Assim como foi feita uma vez pela revista que prefiro não dizer o nome”, lembrou, sem explicitar a revista Veja.

O redator-chefe da revista, Sérgio Lírio, relatou então o caso do jornal Página 12 e da revista Caras y caretas, na Argentina, perseguidos pelo novo governo. “O fundo das centrais sindicais comprou um grupo incluindo os dois veículos e uma rádio”. Uma ideia para tentar resolver o fluxo de caixa. “Se a sociedade quiser comprar uma parte e se tornar sócia”, explicou.

O apoio do Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro e da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros não faltará. “Junto às centrais sindicais, queremos fazer o trabalho de colheita de assinaturas com rigor, calma, mas persistência”, assegurou o diretor-presidente do Senge/RJ, Olímpio Alves dos Santos. No mesmo tom, o diretor-presidente da Fisenge, Clovis do Nascimento, garantiu: “Vamos nos irmanar e trabalhar para manter a Carta Capital em dia”.

Olímpio aproveitou para falar da vitória dada pelo Júri Popular do Festival de Cinema do Rio ao documentário de Silvio Tendler, Dedo na Ferida, que contou com o apoio das duas entidades e pediu à Carta Capital que divulgue o filme, cujo tema é exatamente “a força da grana que ergue e destroi coisas belas”, parodiando Caetano Veloso.

Sem conseguir destruir, no entanto, o que há de bom nos corações e nas mentes de muitos brasileirinhos. O depoimento do professor de Física, José Helayel, comoveu a todos. Atuando em Petrópolis com estudantes de baixíssima renda (até dois salários mínimos), revelou que seus alunos leem textos da Carta Capital e gostam muito. “Se cotizam com 50 centavos e um real para comprar a revista”, garantiu.

A ata para assinatura de fundação da sociedade foi passada na plateia que reunia nomes expressivos, além dos já citados, como o ex-ministro José Gomes Temporão, os professores Carlos Lessa, Darc Costa e Luiz Fernandes, a historiadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, Isabel Lustosa, e o jornalista Jesus Chediak. O presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino e o deputado federal (Psol) Glauber Braga mandaram mensagens de apoio.

No encerramento, Belluzzo reverenciou o patrono da ABI, Barbosa Lima Sobrinho que, se ali estivesse, seria com certeza o primeiro a assinar a ata, lembrando de sua energia e disposição, com mais de 90 anos, ao organizar a Campanha pelas Diretas, na casa de Ulisses Guimarães. E fazendo a leitura de todos os nomes que fizeram a convocatória da reunião, Roberto Amaral se despediu com otimismo: “Quem sabe não conseguimos o efeito piracema (período de reprodução dos peixes) e espalhamos com força a campanha em todo o país?!”

A semente está fortemente plantada.

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