17.10.17

ENCONTRO SECRETO EM UMA NOITE DE NATAL

ALCYR CAVALCANTI -

"O Jornalismo é o único rascunho da História (e não o primeiro), porque os indícios históricos são perecíveis. Podem desaparecer. Se não forem registrados por alguém podem sumir para sempre. Se perdermos todos os registros históricos- e de fato perdemos a maioria- o que de fato poderemos dizer sobre a história? O que de fato poderemos dizer sobre ela?"(Errol Morris, Revista ZUM abril/2012)

Leonel Brizola e Roberto Marinho / Foto: Alcyr Cavalcanti - all rights reserved - uso proibido sem autorização do autor.
Um encontro e muitas perguntas. Porque inimigos históricos se encontraram em uma noite em que todos estavam a festejar o Nascimento de Cristo? Porque nada foi publicado se uma equipe da TV Globo e uma equipe do Jornal O Globo foram chamados e  tudo registraram? Porque um jovem e promissor repórter Luiz Erlanger, anos depois diretor de jornalismo da emissora de TV designado para a cobertura jornalística fez um belo texto e nada foi publicado? Mas, as imagens da situação até certo ponto inusitada ficaram guardadas, como prova documental em um possível julgamento para a história.

Era um final de tarde do dia 24 de dezembro de 1982, as celebrações do Nascimento de Cristo começavam. Eu estava em um plantão no departamento fotográfico de O Globo à espera do que pudesse acontecer. Era o único repórter fotográfico à disposição em uma escala reduzida, muitos estavam de folga para trabalhar no Ano Novo, uns poucos estavam ainda em algum acontecimento ou já estavam liberados. O jovem  repórter Luiz Erlanger entra na Fotografia e pede para eu vestir um paletó e colocar o acessório obrigatório para a ocasião, a gravata. Deveríamos ir até o gabinete do Doutor Roberto Marinho na TV Globo no Jardim Botânico, à serviço da diretoria.

Depois de algum tempo fomos chamados Erlanger, eu e uma equipe de TV da emissora. No gabinete estavam uns assessores, Doutor Roberto e o Governador Leonel Brizola, um desafeto desde a última eleição por causa do "Caso Proconsult" que tinha como alvo a votação para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Comecei a trabalhar clicando minha velha e possante Nikon F2 acoplada com flash Metz e carregada com o melhor filme para reportagens o Tri-X da Kodak, sempre procurando estar atento a tudo, mas não dava para ouvir a conversação, nós estávamos a uma certa distancia. Após algum tempo, o assessor pediu que nos retirássemos, agradeceu em nome do patrão e esperou nossa saída. Todos se retiraram, ficaram dois assessores doutor Roberto e o Engenheiro Brizola. Me fiz de surdo e quase morto, e fiquei em um canto, o assessor fez com a mão que eu me retirasse, me fiz de cego e continuei no meu cantinho. Tinha sido socializado a fazer sempre que possível a melhor imagem, a equipe sob a editoria de Erno Schneider era muito exigida. Fui ficando, nas sombras, nos cantos, furtivamente a procurar a invisibilidade e ter o alvo bem visível, à maneira do bom caçador de imagens. Chegou a hora das despedidas, continuei acompanhando (Bad Company) até as cordiais, ou formais despedidas no elevador e fomos para a redação na Rua Irineu Marinho para quem sabe publicar algo em destaque. Tremendo engano, nada foi publicado, nem uma linha sequer para a frustração nossa. Luiz Erlanger deve ter feito um belo texto, e minhas imagens foram bem reveladas, mas nada de publicação, a imagem era indesejada, ou quem sabe proibida. 


Guardei alguns negativos, sabia da importância das imagens entre duas pessoas que compunham a elite dirigente e os rumos de um país, cada um a seu modo, cada um com seu poder, cada um com seus compromissos. As perguntas no início do texto continuam ainda sem resposta, os dois atores principais faleceram, o partido trabalhista no qual Brizola era o ícone não é mais o mesmo, a correlação de forças é bem outra. As Organizações Globo cresceram, são tidas como uma enorme força decisória, Roberto Marinho morreu, mas os três filhos manejam habilmente seus negócios. Os tempos são outros, mas o antagonismo, as críticas de ambos os lados continuam.

Nos novos tempos envelhecidos do século XXI fala-se muito em "arco de alianças" em "democracia de coalizão" em "democracia de cooptação", em alguns casos palavras ditas sem sentido, apenas justificativa para alguns negócios sombrios. Nos novos tempos da pós-verdade, da verdade relativa muito se fala e pouco ou nada se diz, são tempos envelhecidos e carcomidos onde "jornalistas amestrados" fazem malabarismos verbais para interpretações que só a eles interessam. As fotos tem várias interpretações, várias leituras, a Fotografia é polissêmica, mas  estão aí para uma análise, ou quem sabe para um julgamento.