7.10.17

ENCRUZILHADAS

LUIZ ANTONIO SIMAS -

De novo! Voltou a circular na rede um texto falacioso e fantasioso sobre oferendas nas encruzilhadas que me parece ter a intenção de desqualificar as cosmogonias e crenças afro-brasileiras ao tirar das encruzilhadas as complexas atribuições de sentidos que os caminhos cruzados têm, em uma leitura rasa e limitada. Reproduzo um texto que escrevi em 2014.


As encruzilhadas são lugares de encantamentos para diversos povos e sempre espantaram e seduziram as mulheres e os homens. São ainda lugares propiciadores, em várias culturas, da realização de oferendas em busca da restituição do oferecido na forma de potências e sortilégios.

Os gregos e romanos ofertavam a Hécate, a deusa dos mistérios do fogo e da lua nova, oferendas nas encruzilhadas. No Alto Araguaia, era costume indígena oferecer-se comidas propiciatórias para a boa sorte nos entroncamentos de caminhos. O padre José de Anchieta menciona presentes que os tupis ofertavam ao curupira nas encruzilhadas dos atalhos.

O profeta Ezequiel viu o rei da Babilônia consultando a sorte numa encruzilhada. Gil Vicente, no Auto das Fadas, conta a história da feiticeira Genebra Pereira, que vivia pelas encruzilhadas fazendo oferendas às divindades e evocando o poder feminino.

Para os africanos, o Aluvaiá dos bantos, aquele que os iorubás conhecem como Exu e os fons como Legbá, mora nas encruzilhadas. Conta o povo do Congo que Nzazi imolou em uma encruzilhada um carneiro para fazer, esticando a pele do bicho num tronco oco, Ingoma, o primeiro tambor do mundo. Em quimbundo, o poder que comanda as encruzilhadas é o do inquice conhecido no Brasil como Bombogira. A origem do nome da divindade é Pambu-a-Njila: encruzilhada.

No universo fabuloso da música, dizem que Robert Johnson, um lenda do blues, negociou a alma com o Tinhoso numa encruzilhada do Mississipi. No Brasil caipira, há mitos sobre a destreza que alguns violeiros conseguiam ao evocar o sobrenatural num cruzamento de caminho.

O violeiro Paulo Freire (músico e historiador do instrumento) conta que um dos babados era enfiar a mão no buraco de uma parede de taipa de uma igreja deserta, localizada em uma encruzilhada, à meia-noite. Bastava então invocar o Sete Peles e sentir uma mão agarrar e quebrar todos os seus dedos. Após a recuperação das fraturas, o dom para fazer miséria com o instrumento iria aflorar. Para quebrar o pacto, o violeiro deveria virar devoto de São Gonçalo do Amarante, enfeitar o instrumento com fitas coloridas e mandar o Coisa Ruim de volta às profundas.

O fato é que a humanidade sempre encarou os caminhos cruzados com temor e encantamento. A encruzilhada, afinal, é o lugar das incertezas das veredas e do espanto de se perceber que viver pressupõe o risco das escolhas. Para onde caminhar? A encruzilhada desconforta; esse é o seu fascínio.

Eu, que sou das encruzilhadas, desconfio das gentes e das explicações do caminho reto. (via facebook)