16.10.17

SEGUNDA CARTA AO GENERAL MOURÃO

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -

Foto: Divulgação.
Desculpe-me importuná-lo novamente, mas seu pronunciamento mencionado ontem continua a repercutir no país e, nas condições brasileiras atuais, pode tornar-se uma espécie de ovo da serpente de uma candidatura militar. Suas motivações são justificadas. Suas convicções são equivocadas. Suas conclusões, extremamente perigosas. Não duvido, porém, que o senhor seja emocionalmente um autêntico nacionalista, como a maioria dos militares. Justamente por isso decidi escrever-lhe essa segunda carta.

Temos, pois, um elemento comum, o nacionalismo. Entendo o nacionalismo como um compromisso com o desenvolvimento brasileiro e o resgate da pobreza que ainda existe em nosso país. Não sei qual sua visão de nacionalismo. Embora tenha me oposto ao golpe de 64 e à ditadura do AI-5 – ditadura sim, general, eu a vivi! -, reconheço que promoveram valores nacionais inequívocos, como o reordenamento do Estado, a reestruturação e expansão da infraestrutura, a valorização do planejamento como instrumento do desenvolvimento.

O artífice dessa modernização a partir do Estado foi Roberto Campos, que o senhor cita duas vezes no sua palestra. Mas qual dos Campos o senhor prefere, o modernizador-estatizante, inspirado por Keynes, ou o crítico feroz da interferência estatal na economia, domesticado por Hayek, e que quebrou um dos maiores bancos privados brasileiros, o BUC? Conheci Campos muito bem. Junto com Raphael de Almeida Magalhães, tivemos uma longa conversa, ponteada por seu espírito divertido. Raphael o provocou sobre essa contradição de ter viabilizado grandes estatais e ter-se tornado seu principal algoz. Ele não quis responder. Tornara-se um dogmático. Disse simplesmente, sem justificar: Me arrependi.

Se não fosse pelo Campos estatizante, que entre outras coisas viabilizou um banco central desenvolvimentista (depois neoliberalizado), construiu o BNH e estruturou o Sistema Financeiro de Habitação, para mencionar apenas algumas medidas modernizadoras, a ditadura do AI-5 não teria tido o sucesso econômico que teve. Entretanto, a tremenda influência liberal-entreguista que ele exerceu sobre gerações sucessivas de economistas, que continuam ocupando espaços decisivos na Fazenda e no Banco Central, praticamente destruiu o braço desenvolvimentista do Estado no Brasil e, aparentemente, também nas Forças Armadas.

O senhor critica os espaços que o PT ocupou no Estado. Isso aconteceu nos Estados Unidos nos tempos do spoil system como decorrência natural da alternância do poder. Aqui foram postos secundários. Milhares na área social, que não manda nada na economia. Os postos-chave foram para ortodoxos de cabeça feita nas universidades neoliberais americanas, sem falar nos Henrique Meirelles, nos Antonio Palocci, nos Joaquim Levy, todos escravizados pelo neoliberalismo do primeiro mundo - o qual, a propósito, está destruindo grande parte da Europa e também nos destruindo, sobretudo com Temer, coisa que Campos não viu.

Não é a crise política que nos levou à crise econômica, mas a crise econômica - inclusive a financeirização absoluta da economia sob a condução do Banco Central cooptado pelos bancos privados -, que nos levou à crise política. Sem uma solução para esta última não haverá estabilização social e política no Brasil. E essa dicotomia vem de longe. Estreitamente ligado ao ex-vice presidente José Alencar, fiz uma paródia quando ele assumiu o Ministério da Defesa em razão de sua luta histórica e frustrada contra as pornográficas taxas de juros reais no país: Aproveite o momento, presidente, e mande uma divisão de tanques cercar o Banco Central e o por abaixo com um bombardeio de saturação. O Brasil ganhará muito com isso!

Quero saber, general, ao senhor que tem tantas certezas, como resolverá o problema das taxas de juros no Brasil? Qual será sua orientação para a política monetária em geral? Como vai tratar a política fiscal - à margem dessa bobagem de dizer que o Estado, mesmo em depressão, não pode gastar mais do que arrecada? Como vai fazer para regenerar a infraestrutura? Como vai reverter o alto desemprego e a falta de serviços sociais nas favelas? Claro, o senhor poderá ter a sorte de encontrar um Roberto Campos em sua primeira versão. Mas se for a segunda - o que é mais provável, porque as escolas militares estão encharcadas de neoliberalismo e as civis estão alijadas do poder -, o senhor e seu grupo acabarão de destruir o Brasil, ressuscitando aqui algum projeto comunista que hoje simplesmente não existe, e que não obstante o assusta.