12.11.17

EPISÓDIO DE ODIOSO RACISMO DEVE SER JULGADO PELA JUSTIÇA

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -

Foto e arte: André Moreau.
O episódio envolvendo o âncora da TV Globo, William Waack remete também a outras questões. O racismo de Waack que pode ser visto em um vídeo vazado é sintomático. Por exemplo, o que teria a dizer o diretor da Globo, Ali Kamel, que chegou a escrever um livro, contra as cotas raciais, dizendo que no Brasil não há racismo? O episódio em questão deixou claro que exatamente ao contrário do que afirmara Kamel, ou seja, há racismo sim, inclusive na própria Globo.

O tema foi analisado no programa IDEA, que foi ao ar na UNITEVE-UFF (26) e teve a participação do autor destas linhas da Coordenadora de Filosofia e apresentadora do programa, a jornalista Solange Rodrigues, do diretor do IDEA, cineasta, André Moreau, e o presidente da Casa da América Latina, o General de Brigada do Exército Brasileiro, Bolivar Meireles.

A própria emissora, TV Globo, que não é nada confiável, divulgou nota condenando Waack, mas não acenou com a demissão do racista. Como a declaração racista de Waack é muito clara, pegaria ainda pior se a pagadora do salário do jornalista ficasse em silêncio.

O lamentável episódio, que só se tornou público um ano depois de acontecido, merece que alguma entidade do movimento negro conforme sugeriu André ou qualquer outra defensora dos direitos humanos ingresse na Justiça exigindo uma reparação. A sugestão é válida, até porque a emissora que lançou a nota não é nada confiável, vale sempre repetir. E quem pode garantir que a execrável fala de Waack não tenha maiores conseqüências e o racista retorne ao canal da Globo para continuar ajudando o esquema golpista de iludir a opinião pública?

É claro que tudo vai depender da mobilização da opinião pública de condenação a uma figura pública que ostensivamente se manifestou de forma racista. E em matéria de racismo não se pode ter nenhuma complacência. Um mero pedido de desculpas, como já foi feito por Waack, não fará com que o episódio seja encerrado e o racista retorne às suas atividades como se nada tivesse acontecido.

Não se pode admitir que um racista volte a fazer o que vinha fazendo nas telas da Globo, porque se isso por acaso acontecer, ficará também comprovado que a Globo com a sua nota de agora simplesmente a redigiu para embromar os que condenam a odiosa manifestação racista. Se não tiver rigor contra o racismo e prevalecer à impunidade, outras figuras como Waack se sentirão estimuladas para repetir o discurso.

Aliás, tempos atrás, como bem lembrou Solange, outro âncora, de nome Boris Casoy, vomitou expressões injuriosas contra os garis e os ofendidos entraram na Justiça, porque não aceitaram um mero pedido de desculpas em função da repercussão negativa do que foi vomitado. Os trabalhadores ganharam na Justiça e Casoy teve de pagar uma indenização.

A hora, portanto, é de definição, que não se encerra apenas com uma nota de condenação e sem que o responsável pelo odioso racismo sofra com o seu ato. Por isso é mais do que necessário que entidades do movimento negro ou defensoras dos direitos humanos, exijam na Justiça uma reparação. Com a palavra, por exemplo, o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos dos Negros (Comdedine). Uma ação desse tipo anulará pela raiz outras manifestações de ódio contra os negros.

Resta saber se no sistema Globo o racismo, ostensivo ou não, se resume a Waack. Cabe também uma pergunta ao diretor da Globo, Ali Kamel, se ele continuará mantendo o que disse no seu livro, por sinal muito badalado quando lançado, que não há racismo no Brasil?

A dúvida foi esclarecida pelo jornalista André Moreau, ao revelar no programa IDEA que o seu pai, o escritor e jornalista José Louzeiro, recebeu a recomendação do então poderoso diretor da Globo, Boni (Bonifácio de Andrada) para que, nas palavras do escritor, “reduzisse o número de negros no Núcleo/Oficina, porque se não o fizesse a Claybon pararia de anunciar”. José Louzeiro, claro, não aceitou a imposição racista. O telefone recebido foi testemunhado por André Moreau.

Quanto a Waack, só resta também enviar-lhe o recado: brasileiras e brasileiros repudiam qualquer manifestação de odioso racismo. E quem o é não pode ser protegido, independente da função que exerça.

E no futuro quando se analisar os meios de comunicação no Brasil, tanto Boris Casoy como Wiliam Waack serão lembrados por manifestarem ódio a trabalhadores e pessoas negras. Fatos como os mencionados depõem não só contra os respectivos âncoras, como também contra as próprias emissoras.

* Via Blog Jornal da ABI/Mário Augusto Jakobskind, é Professor, Jornalista, Escritor, vice-presidente da Chapa Villa-Lobos, arbitrariamente impedida de concorrer à direção da ABI (2016/2019) e Coordenador de História do IDEA, Programa de TV., transmitido pela Unitevê, Canal Universitário de Niterói, Universidade Federal Fluminense (UFF).