20.11.17

RACISMO

ADERSON BUSSINGER -


Racismo. Eu Compreendi, mas nunca deixei de ser: Branco, descendente de suíços, por um lado, e origem portuguesa, de outra parte, ambas de DNA longínquos no tempo..., eu felizmente adquiri muito cedo, (quando ainda garoto), a consciência anti-racista, graças em grande parte à educação de meus pais e também a influência da teologia da libertação de religiosos como Leonardo Boff, tão em voga no final dos anos 70, que me fizeram questionar muitas coisas, dentre estas, o racismo reinante.

Depois adveio o contato com o movimento negro, vozes como de Abdias do Nascimento, a poesia de Solano Trindade, Nelson Mandela preso, Martin Luther King, Malcolm-X, e tudo, ou quase tudo... ficou evidente para mim.

Mas o fato que desejo aqui tratar neste 20 de novembro de 2017, refere-se a como, todos nós, em menor ou maior grau, apesar de nossas consciências mais progressistas, somos ainda racistas, discriminatórios dos negros e negras, pois o nosso olhar em relação a estes irmãos ainda segue enviesado pelo olhar Branco das elites escravocratas e seus sucessores até os dias atuais, e isto, apesar dos esforços, ainda vai demandar muito tempo até que sobretudo (e indispensavelmente) a luta dos negros e negras do Brasil e do mundo, nos retire dos olhos o que historicamente embranquece a nossa visão (e pensamento), que consiste nos mais variados tipos de vedações do olhar, desde as mais opacas, bloqueadoras de toda visão..., até mesmo os “óculos de grau do saber branco aparentemente democrático e cordial, jurídico”...; Isto Porque simplesmente não nos libertamos ainda dos quase quatro séculos de escravidão negra. E o nosso inconsciente acostumou-se com isto!

Naturalizou o fato de que 70 por cento das cadeias são compostas de negros. Que temos pouquíssimos negros e negras professores universitários, médicos, dentistas, advogados, engenheiros, juízes, oficiais das forças armadas, mas, por outro lado, o trabalho braçal e mal remunerado, indigno muitas vezes, o mais precarizado de todos, este, sim, tem cor e origem africana no Brasil. E como isto interessa aos que lucram com toda esta super-exploração, a questão racial não é, portanto, um assunto (e estrutura) apenas mental, ético, preconceituoso e ignóbil, mas, ao mesmo tempo - e em todos os diferentes tempos - uma questão de classe, cuja solução, ainda que em um regime justo e socialista (que é o qual defendo para o Brasil e para o mundo), ainda assim, não será totalmente resolvido este câncer, a depender de que dentre os trabalhadores, a esquerda, um dia , espero, - alçados futuramente os oprimidos ao poder -, haja (ou não) uma justa presença negra no governo que se constituirá. E isto, mesmo em um regime economicamente mais favorável aos trabalhadores, fará certamente a diferença em relação ao item preconceito racial. Pois, meus amigos, brancos e negros, retornando ao que disse no início deste breve texto, somos todos “mais ou menos” um pouco de alguma forma racistas, preconceituosos, sendo que ter consciência disto já é um grande feito.

E encerro aqui saudando Zumbi dos Palmares, para mim o maior herói do Brasil. Herói e um líder, que ao lado de Dandara, liderança negra de Palmares, foram capazes, ao seu jeito e tradução africana, de construir, governar, e durante longo tempo habitarem uma belíssima Região serrana e lugar, no nordeste brasileiro, onde comprovadamente na história nacional a maior quantidade de negros e negras conseguiu, reunida, viver livre e desfrutar, durante um longo tempo, (até serem covardemente dizimados) um pouco de sua bela natureza no magnífico quilombo de Palmares.

Viva Zumbi, Dandara!!!

* Aderson Bussinger, advogado, conselheiro da OAB-RJ, integra o MAIS - Movimento Por Uma Alternativa Independente Socialista. Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais/UFF, colaborador do site TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical, Diretor do Centro de Documentação e Pesquisa da OAB-RJ, membro Efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB.