31.1.18

A PRISÃO DE LULA PODE SER O ESTOPIM DA CONVULSÃO SOCIAL PORQUE O POVO BRASILEIRO NÃO É O CAVALO DO INGLÊS

ANDRÉ MOREAU -


A história do cavalo que o inglês considerava comer muito, em troca do trabalho prestado, resume este artigo. O inglês foi reduzindo a ração do cavalo, até que um dia, o animal morreu. Surpreso o inglês se questionou: “O bicho morre logo agora que eu estava quase conseguindo que ele trabalhasse sem comer?”

É essa a dificuldade daqueles que trabalham enclausurados em gabinetes refrigerados: entender que o mundo em que vivem, é muito menor do que a realidade concreta do povo. Seus relacionamentos se resumem a alguns amigos de condomínio, simpatizantes ocasionais, colegas de profissão, assessores do escritório, bajuladores e encontros familiares.

É um mundo plastificado por teorias liberais de mercado, distante da realidade dos trabalhadores de fábricas, daqueles que vivem na periferia e sabem porque suas vidas se assemelham a de habitantes de cidades do interior. Todos se conhecem pelo nome e são solidários nas desgraças que ferem a sua gente.

O sonho desses senhores é um dia conseguir que o povo trabalhe em suas fábricas como o cavalo do inglês, sem se importarem com as possíveis baixas, o que explica o desmonte da Consolidação das Leis do Trabalho e da Previdência Social.

A reação popular no dia da condenação do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vista por este ângulo, além de reivindicar a realidade festiva que mudou radicalmente nas periferias, de 2016 para cá, anunciou de forma nítida a revolta contra os desmontes em curso, o que não estava nos planos dos promotores, juizes e ministros que insistem nas medidas de choque, “anti-corrupção” e de guerra ao tráfico que abrem caminho para tais desmontes a partir de mudanças no ordenamento constitucional.

O trabalhador sabe o que há por trás desses choques insuflados por oligarcas que comandam os meios de comunicação conservadores: levar a cabo o plano de desmonte de tudo que é público e beneficia os mais pobres.

Os que estavam confusos diante das “pedaladas” usadas para derrubar a Presidenta Dilma Rousseff, eleita por cinqüenta e quatro milhões e meio de votos, já sabem que o impeachment, sem mérito, foi um golpe que vem destruindo as melhorias sociais, assim como não acreditam nas falas mansas desses homens e mulheres que usam o Poder Jurídico para distorcer leis, para perseguir adversários políticos.

Os articulistas da onda de justiçamento promovida com choques, para confundir os trabalhadores, caíram na boca do povo e a cada novo choque, são vistos como vendilhões que operam o plano de entrega das riquezas naturais, de precarização do trabalho formal e privatização da florescente Previdência Social.

A reportagem em tom discricionário na qual a Presidenta do Supremo Tribunal Federal (STF), Carmem Lúcia, é colocada como se fosse avessa a “garantia da presunção de inocência”, destacando a seguinte opinião sobre prisões a partir de sentenças de segundo grau: “seria realmente apequenar muito o STF”, tratou-se de mais uma manipulação de choque que reaviva o conhecido “slogan”, criado na ditadura de 64: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

O julgamento que será retomado no STF, ao contrário da citada reportagem das Organizações Globo que pressionou a presidenta do STF, tratará do Art. 5º da Constituição, que na § LVII, diz - “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória (...)”. Trata-se de uma garantia processual do réu não ser considerado culpado por um ato delituoso até que a sentença penal condenatória transite em julgado, contida na mencionada cláusula pétrea visando evitar a aplicação errônea das sanções punitivas previstas no ordenamento jurídico.

Os Trabalhadores que se levantaram no dia 24 em Porto Alegre, em São Paulo e vários outros estados, são aqueles que lembram o que vivemos na ditadura passada e das melhorias sociais conquistadas nos governos Lula e Dilma.

Ao contrário do que imaginam esses burocratas, a sensibilidade das pessoas que matam um leão por dia para sobreviver, é grande, assim como seus respectivos círculos de relações. São pessoas capazes de dar suas vidas por aqueles que lutam a boa luta, por direitos humanos, com os quais se identificam.

O autoritarismo dos “informantes não oficiais” e togados que se consideram salvadores da pátria e agem por impulso diante das câmeras, chocam os intelectuais que estão vendo a convulsão social eclodir nas periferias dos grandes centros, apesar de todos os gastos com as forças de segurança pública, despendidos em nome da guerra ao tráfico, operada nos meios de comunicação conservadores.

O abandono social é latente. Marcado pela falta de prevenção do estado opressor que em tempos de “divisão do produto do roubo”, fraciona vacinas, como fizeram no Congo, na tentativa de conter o surto de febre amarela, erradicada há cem anos atrás pelo sanitarista Oswaldo Cruz, responsável pela campanha de combate aos focos dos mosquitos.

Entre esses dois mundos, dos choques que transformam em mitos promotores, juízes e ministros, totalmente alheios a realidade do povo, é conveniente lembrar que o povo brasileiro não é o cavalo do inglês, portanto não se pode esperar que o povo morra de fome passivamente, enquanto servidores públicos que não foram eleitos para interferir nos rumos da democracia, se arvoram em “sujeitos do suposto saber”.

* André Moreau, é Professor, Jornalista, Cineasta, Coordenador-Geral da Pastoral de Inclusão dos "D" Eficientes nas Artes (Pastoral IDEA), Diretor do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê - Canal Universitário de Niterói e Coordenador da Chapa Villa-Lobos - ABI - Associação Brasileira de imprensa, arbitrariamente impedida de concorrer à direção nas eleições de 2016/2019.