9.1.18

COREIAS ANUNCIAM AS “OLIMPÍADAS DA PAZ”. O MUNDO PRESENCIOU UM FATO HISTÓRICO QUE DESAGRADOU TRUMP E A MÍDIA CAPITALISTA

LUCAS RUBIO -



Hoje (9) as autoridades da República Popular Democrática da Coreia e da República da Coreia se reencontraram após um jejum de mais de 2 anos de conversações bilaterais. Ou seja, Coreia do Norte e Coreia do Sul hoje sentaram na mesa frente a frente para conversar sobre vários assuntos. Mas, por que isso é importante? Que assuntos foram esses? No que isso implica na política global? Como isso foi possível?

Como sabemos, há mais de 70 anos ambos os Estados vivem em clima de guerra, que foi real entre 1950 e 1953 e transformou-se em uma guerra de palavras, imagens e meias-ações depois desse período. De um lado, a RPD da Coreia, país soberano, socialista e sem qualquer interferência externa em suas decisões, buscando a reunificação pacífica da Coreia covardemente dividida em dois por potências estrangeiras no final da Segunda Guerra Mundial. Do outro, a Coreia do Sul, capitalista, ocupada militarmente pelos Estados Unidos desde 1945 e manejada como uma marionete dos estadunidenses que buscam aniquilar o Estado comunista no norte.

Por isso, um encontro como esse de hoje nos coloca diante de um momento único em que temos a oportunidade de ver de perto e pensar sobre uma questão dolorosa: um mesmo povo, com uma história comum de 5.000 anos, colocado de lados opostos e separados por cercas e guerras.

O lado mais 'fraco' desse cabo de guerra é a Coreia do Norte, uma vez que está isolada e sofre com mais de 50 anos do mais pesado bloqueio econômico, político, diplomático, midiático e militar que se tem notícia. Mesmo assim, o pequeno país jamais desistiu do seus objetivos de construção socialista e independente e sempre tentou uma reaproximação com o lado sul, colocando sempre como cláusula obrigatória a saída das tropas dos EUA da Península e sua promessa de não se intrometer nos assuntos intercoreanos. Por vários motivos, isso nunca se realizou: o Império dos EUA não quer abrir mão de abocanhar toda a Coreia e destruir o país que foi o primeiro a lhe derrotar em uma guerra.

Para sair dessa situação em que nem o mundo nem os próprios coreanos no sul estão dispostos ou prontos para o diálogo pacífico, objetivo central da política da Coreia do Norte, o país resolveu investir pesadamente em outros métodos que cobraram alguns preços. A Coreia Socialista iniciou um desenvolvimento descomunal de sua indústria bélica, apostando em setores primordiais da guerra atual, como o setor científico de desenvolvimento nuclear e de mísseis balísticos capazes de colocá-la em uma situação de pelo menos ser capaz de responder à altura qualquer provocação militar. Com isso, em um curto espaço de tempo, os norte-coreanos alcançaram êxito em criar, testar e produzir ogivas nucleares, bombas de hidrogênio (bomba-H) e mísseis balísticos de médio e longo alcance. Recentemente, a tecnologia de mísseis capazes de atingir os EUA foi dominada (mísseis Hwasong-14 e 15) e isso deu à RPDC uma carta no jogo geopolítico que a colocou pela primeira vez em larga vantagem.

O ano de 2017 foi um ano de grandes crises. Os Estados Unidos, sob sua nova e megalomaníaca administração, chefiada pelo cão covarde Donald Trump, não aceitavam de jeito nenhum um país socialista, independente e poderoso que fosse capaz de não só não seguir seus ditames como também ter capacidade de lutar com a maior e mais poderosa potência global em pé de 'quase' igualdade. Todos nós fomos espectadores das inúmeras demonstrações corajosas de força do povo coreano com exercícios militares, lançamento de mísseis e testes nucleares, além das manobras hostis e desproporcionais dos EUA tentando cercar e sufocar mais uma vez um pequeno país que só deseja seguir seu próprio caminho. As provocações e palavras agressivas de ambos os lados, as "poderosas" frotas navais estadunidenses que supostamente iam para a Coreia mas na verdade viravam o curso para o sentido contrário... Tudo amplamente explorado pela mídia. 2017 chegou ao fim com a manutenção da soberania da RPDC e a quase loucura e raiva da Casa Branca por não conseguir agir com "fogo e fúria" contra o povo coreano.

E então tivemos o primeiro grande sinal vindo dos norte-coreanos nas primeiras horas de 2018: como tradicionalmente faz em todo ano novo, o líder da Coreia, o Marechal KIM JONG UN, fez um longo discurso em que frisou as conquistas do ano passado e fixou as metas para o novo ano. Uma delas foi inesperada: desejos de boa sorte para os Jogos de Inverno, que serão realizados pelos irmãos na Coreia do Sul nesse ano, e a demonstração de desejo que a equipe nacional da Coreia do Norte possa participar dos jogos que serão realizados em suas terras - a Coreia.

As autoridades sul-coreanas receberam as intenções e aguardaram um posicionamento mais específico por parte do Norte. Ele veio, por meio de Ri Son Gwon, presidente do Comitê para a Reunificação Pacífica da Coreia, que fez um discurso no dia seguinte em que disse esperar a colaboração do Sul para a realização de uma reunião que tratasse da reaproximação entre os Estados.

Resposta por parte do Sul? Sim! Reunião histórica marcada para 9 de janeiro de 2018. Local: a Zona Desmilitarizada da Coreia, a faixa de terra que fica na altura do Paralelo 38 e divide a Coreia em duas, um lugar que foi palco de reuniões anteriores do mesmo tipo ou eventos históricos maiores ainda, como a assinatura do armistício da Guerra da Coreia de 1950-1953.

Histórico, não? Por quê? Porque aqui temos um governo do Sul agindo com as próprias pernas! Quase todas as reuniões anteriores haviam sido agendadas após intensos diálogos com Washington, afinal, o Sul da Coreia é uma colônia e toda ação demanda uma autorização da metrópole - a Casa Branca. Dessa vez não, além do próprio Sul marcar e entrar em contato com o Norte, os EUA não foram sequer mencionados para fazerem parte da reunião. Imagine a reação de Trump. Detalhe primordial: o assunto "desnuclearização da Coreia do Norte" não foi colocado em pauta. Não falar sobre esse assunto representa um grande recuo por parte da estratégia sul-coreana.

Por que essa mudança drástica nos assuntos? Essa é uma nítida vitória da estratégia norte-coreana de levar a situação. A Coreia do Sul tomou total consciência (finalmente, será?) de que o uso da força tão defendido pelos patrões dos EUA não é uma opção viável porque o Norte irá reagir da maneira mais destrutiva possível e isso coloca em risco sua própria existência. Exigir reuniões pra falar desse tipo de coisa é infrutífero, irrita os coreanos e não leva a lugar nenhum, só tensiona mais ainda a situação.

A reunião foi chefiada por Ri Son Gwon, representando o Norte, presidente do Comitê já mencionado, e Cho Myoung Gyon, representando o Sul, Ministro da Unificação. Os principais assuntos foram: reativação do canal de diálogo militar entre os exércitos norte e sul e a participação da Coreia do Norte nos jogos olímpicos a serem realizados no Sul. Após muitas horas de reunião, os sorrisos estampados nos rostos dos membros das duas delegações demonstravam o clima de paz. Ficou acordado que, para que o Sul recebesse o Norte nas olimpíadas, algumas sanções seriam revistas pelo governo de Seul (pasmem, as mais recentes sanções da ONU impõem sobre a Coreia do Norte bloqueio de participação em competições esportivas, que deveriam ser um canal de paz e cooperação!). Ou seja, teremos a delegação do povo coreano do norte participando das competições no solo sul da sagrada Coreia! Além disso, foi reestabelecido o contato entre as forças armadas, visando a resolução de conflitos na fronteira e uma busca por uma opção mais pacífica e ponderada sobre as tensões.

No que isso implica na política global? Isso implica, estimados, que um pequenino país do tamanho de Roraima conseguiu não driblar, mas dobrar e vencer a mais feroz potência do mundo, os EUA. A Coreia do Norte, com seu jogo de paciência e ação prática, conseguiu conversações com o Sul sem interferência americana, algo raríssimo.

Como isso foi possível? Graças à política socialista do Norte de jamais se render às forças externas que tentam sua aniquilação e alcançar sempre diálogos pacíficos com os irmãos do Sul.

Essa reunião de hoje abre margem para futuras negociações mais sérias sobre economia e sociedade, quem sabe isso crie um precedente para que as famílias separadas pela guerra se reencontrem mais vezes, como farão os atletas dos dois Estados.

O fato de hoje prova que o povo coreano é um só! Prova que Norte e Sul não são inimigos e que não se odeiam coisa nenhuma! Tudo isso é resultado de anos de interferência brutal e agressiva dos Estados Unidos na região, tudo em busca da hegemonia de sua economia, política e cultura sobre um povo com 5 milênios de tradição, de mesmo sangue, de mesma língua e de mesma terra! Muita propaganda midiática de guerra que incentiva um ódio entre irmãos que não existe na prática.

Não criemos grandes expectativas de que isso vá resolver todos os problemas e que uma era de paz esteja diante de nós, mas, para relações tão tumultuadas, qualquer aperto de mão e sorriso tímido no rosto é um alívio, não?

* Lucas Rubio, presidente do Centro de Estudos da Política Songun - Brasil