19.1.18

FILA RACISTA NO JACAREZINHO

ANDRÉ BARROS -


o dia 12 de janeiro de 2018, Fábio Monteiro, Delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro, casado e pai de dois filhos, com apenas 38 anos de idade, foi encontrado morto na mala de um carro crivado de balas. Ao que tudo indica, o Delegado foi vítima de homicídio triplamente qualificado: mediante tortura, meio que impossibilitou sua defesa e contra autoridade policial em decorrência de sua função.

A polícia está investigando, vai encontrar os autores e esclarecer os motivos desse crime bárbaro. O carro foi deixado perto da histórica favela do Jacarezinho. É óbvio que a população de 90 mil moradores e outros milhares de frequentadores não são os autores desse crime. Então, por que a polícia criminaliza todo o bairro do Jacarezinho?

O vídeo postado nas redes sociais com a polícia levando mais de 50 pessoas presas, em fila, de mãos dadas, saindo da favela do Jacarezinho, traz uma imagem que seria inimaginável para o século XXI, mas, infelizmente, é bem atual no Rio de Janeiro. A polícia atira para cima, ameaça homens e mulheres e ainda manda todos ficarem de cabeça para baixo.

As imagens dessa fila racista me fizeram recordar do livro de Thomas Holloway: “POLÍCIA NO RIO DE JANEIRO – Repressão e resistência numa cidade do século XIX”. O autor descreveu, à página 49 da 1a edição, uma passagem do mais terrível policial do final do século XVIII e início do XIX no Rio de Janeiro, Miguel Nunes Vidigal:

“Vidigal também comandou pessoalmente assaltos aos quilombos ou acampamentos de escravos fugitivos montados nas encostas arborizadas dos morros que rodeavam o Rio de Janeiro. Esses esconderijos localizavam-se perto do centro urbano para permitir aos quilombolas insinuar-se à noite na cidade em busca de mantimentos, mas o clarão de suas fogueiras e o ruído dos seus tambores perturbavam os habitantes da cidade. Uma das proezas mais decantadas de Vidigal ocorreu em 19 de setembro de 1823, quando liderou uma força da polícia e tropas do Exército regular contra um quilombo no morro de Santa Teresa. Na manhã seguinte, ele entrou triunfalmente na cidade, montando um garanhão empinado, à frente de uma coluna de mais de 200 prisioneiros seminus capturados na incursão, entre homens, mulheres e crianças, muitos deles usando colares de conchas marinhas e decorações de penas que sugeriam elementos da cultura africana.”

Em 1983, outra fila racista foi registrada no Rio de Janeiro: intitulada “Todos Negros”, a imagem de um grupo de homens negros amarrados com cordas pelo pescoço numa favela da estrada Grajaú-Jacarepaguá, ao mesmo tempo em que envergonhou o Brasil, rendeu o primeiro prêmio Esso ao consagrado fotógrafo Luiz Morier.

O que é mais preocupante é o fato de que hoje, em pleno século XXI, uma significativa parte da sociedade não mais se envergonhe dessa fila racista do Jacarezinho. Pelo contrário, mesmo com as imagens escancaradas pelas novas tecnologias da informação, ainda há os que apoiam esse tipo de ação.

Essas filas são marcas de nossa história racista e a prova de que a escravidão não acabou, mas continua mais viva do que nunca na cidade da maior população escravizada do mundo.