22.1.18

POESIAS: DESDITA; VITÓRIA CINZENTA

MARCELO MÁRIO DE MELO -

DESDITA

Não há nenhuma frase a ser escrita.
O verbo ressecou ante o espanto.
A inércia em atenção aflita
empedra os olhos e congela o canto.

A alma se contorce mas não grita.
É pelos poros que se esvai o pranto.
E no abecedário da desdita
se inscreve na mortalha o desencanto.

As cinzas das exclamações em sal
lavadas na chuva das reticências
e em granizo de interrogações.

Ante o manancial das inclemências 
sem releituras e interpretações 
só resta espaço ao ponto final.

***
VITÓRIA CINZENTA

O fantasma marcou nova vitória
impondo a ilusão do estandarte.
O amante resvalou na gosma inglória
e com ele dançou em contraparte.

Repete-se assim a mesma história 
o mesmo fio outra vez se parte 
a mesma teia de triste memória 
reconstruída em venenosa arte.

Na outra margem corre um rio de dor 
de quem viu toda teia ser tecida 
no tear do fantasma sorridente.

Inscreve-se o drama pela vida 
em desfecho cinzento e inclemente: 
as garras na garganta do amor.