1.1.18

UM RÉVEILLON NO JACAREZINHO

ALCYR CAVALCANTI -


Era o final do ano da graça de 1988, estávamos à beira de um Ano Novo cheio de esperanças, o Ano de 1989 seria um ano de muitas realizações e era preciso celebrar sua chegada. Eu trabalhava na equipe fotográfica do Jornal O Dia, carregava comigo a experiência de haver trabalhado em dois grande jornais, O Globo e o Jornal do Brasil e tinha a fama de ser um especialista em favelas, após a temporada na Rocinha, que rendeu uma reportagem histórica para o JB. Haviam esquecido que eu havia também sido rotulado como um "fotógrafo de coluna social", pelos três ou mais anos cobrindo a vida noturna e as socialites da cidade na época de ouro do colunismo social. Mas jornalismo é assim mesmo (ou era). As equipes para a grande cobertura de final de ano haviam sido escaladas eu, com um "profundo" conhecedor dos meandros das favelas cariocas fui premiado com a tarefa de passar o réveillon no meio do tiroteio. Na Favela do Jacarezinho, um dos redutos do Comando Vermelho, na época sob o reinado do Kojac, o dono do morro.

Sabiamente perguntei aos chefes se estava tudo combinado, afirmaram com um sonoro " Sim, claro que sim". Mas eram apenas palavras ao vento, nada havia sido combinado, seria apenas para "não ficarmos intimidados, com medo da matéria". A experiente repórter que teria sido o contato havia se esquecido, ou parece ter se esquecido. Fomos então todo contentes para a inglória missão, que provavelmente poderia render uma capa e um destaque no jornal.

Mais do que nunca a velha máxima "Não se entra em uma favela sem ter sido convidado ou sem ter um destino certo". Ao chegarmos na favela, em torno de dez da noite fomos direto para a praça principal, acho que Largo da Concórdia  (kkkkk) que estava meio deserta. Estavam preparando um coreto para um baile e as comemorações. A repórter Angelina, o motorista e eu desembarcamos de uma Kombi meia caindo aos pedaços  sem a logomarca do jornal,  e o motorista "malandro agulha" a toda hora usava o radio comunicador para "tirar uma onda". Ao pressentir que a acolhida não iria ser nada amistosa tive a brilhante ideia de encontrar a matriarca local e saímos a procurar, e batemos em uma casa e nada encontramos, ninguém queria falar, nem matriarca, nem patriarca nem criança, estávamos abandonados á própria sorte. Aos poucos o tempo ia passando, em um beco as caixas de som iam chegando, o palco para os festejos estava quase pronto. Fogos começavam a espocar e alguns tiros também. Faltavam quinze minutos para a meia noite, um novo ano pleno de esperanças ia começar, e começou. De um dos infindáveis becos em plena escuridão, de repente sai uma tropa de uns vinte jovens não com foguetes e bombinhas comemorativas, mas com fuzis, pistolas e vem aos gritos em nossa direção : "Que porra é essa, guarda esse troço"  em relação à minha velha Nikon. Fiquei petrificado, sem ação enquanto um deles apontava sua arma o outro fez um sinal negativo para mim e foi direto ao rádio comunicador, privilégio de policiais e jornalistas, e foram diretos a nos acusar de X-9. Meio gagos e trêmulos dissemos a um dos jovens soldados que éramos do Dia e estava tudo combinado com o Kojak, mas eles deram um sorriso estranho e disseram que nada havia sido passado a eles e que o tal Kojak não mandava nada e após uma pequena confabulação entre eles disseram para ir embora e com muita rapidez. O Kojak das Joias como era conhecido tinha levado a Escola de Samba Unidos do Jacarezinho para o Grupo Especial no Carnaval 1988. Ao que parece já havia uma cisão no movimento e  Kojak era a "bola da vez", foi executado e arrastado como um animal pela favela um tempo depois, mas quem havia ficado na redação não sabia nada de Jacarezinho, ou esqueceu que nas mais de 950 favelas da bela cidade de São Sebastião o movimento é extremamente móvel, e tudo muda com muita rapidez e como diria um cientista social de gabinete "A correlação de forças mudou", mas em realidade "no Jacaré o buraco é mais embaixo".

Claro que após a recepção nada amistosa, entramos na Kombi e fomos embora, aparentando calma, a essa altura estávamos congelados de medo, a repórter Angelina estava paralisada no banco de trás e balbuciava frases desconexas. Ao sair vagarosamente a dez km ainda tive a infeliz ideia de falar a um dos rapazes que se preparava para botar as caixas de som a mil decibéis se podia tirar uma foto do grupo, e respondeu simplesmente apontando para uma arma que estava em sua cintura e notei que logo atrás dois soldados estavam na contenção. Só então caímos na realidade que era sumir dali o mais rápido possível e fomos á procura inglória de um bar para baixar o nível de stress, mas era tudo um deserto só, as pessoas ou estavam trancados em suas casas a festejar, ou todos na Praia de Copacabana na saudação à Rainha do Mar. Fomos cada um de volta para casa completamente mudos e rezando para que o ano que começava fosse um pouco melhor do aquela noitada imensamente mal sucedida. Mas, pensando bem se fosse hoje, nos novos tempos envelhecidos do século XXI, não estaria aqui a contar como se faz uma reportagem, ou melhor como não se deve fazer a reportagem de um Réveillon no Jacarezinho.