4.2.18

ÁGUA NO CHOPP DO CARNAVAL CARIOCA

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Estou ficando novo demais para morrer e velho para certo Carnaval de Rua do Rio de Janeiro. Sinto-me próximo do dia em que serei uma espécie de folião mico-leão dourado, quase extinto, engolido pelas multidões coreografadas, submerso em materiais de propagandas de empresas que patrocinam a folia e atropelado por caminhões de som com amplificadores capazes de fazer o baticum chegar aos anéis de Saturno.

Não quero jogar água no chopp de ninguém, não pretendo reprimir quem quer que seja e acho que no Carnaval vale até bloco de peregrinos do Santo Sepulcro. Tudo se legitima. Confesso, porém, certo desconforto com um tipo que, se eu estiver certo, se transformará na figura mais comum do furdunço carioca: o jovem universitário descolado, carioca maneiro, antenado com a cena contemporânea, inquieto, renovador, artista pop, multimídia, pinta de malandro fantasiado de Zé Pilintra, que transitará do maracatu rural ao rock pós-punk e fundará, com a rapaziada mais chegada, um bloco eclético para multidões. Surgirá dele uma dissidência que criará um bloco clandestino para quinze pessoas.

O bloco descolado, moderninho, atacará de Xuxa, Chacrinha, Jornada na Estrelas, ciranda cibernética, Beatles, Reginaldo Rossi, Roberto Carlos, Biafra, pagode, Raul Seixas, Legião Urbana, Zezé de Camargo e Luciano, João Paulo e João Paulinho e música étnica afro-indiana. O bloco bombará, oferecerá oficina para ritmistas na Fundição Progresso e, ó glória!, será convidado para tocar na abertura das Olimpíadas de 2016.

Mas este arrazoado, enfim, não pretende ser profecia, análise social, antropológica, histórica, ou coisa que o valha. Muito menos dizer o que cada um deve fazer no tríduo (quero mesmo que todo mundo se divirta, ou não, como achar conveniente). É apenas a impressão, particularíssima, de um folião que continuará adepto da anárquica aventura do bloco do “eu sozinho”; se comoverá com uma marcha-rancho velha de marrédeci; cantará, depois de alguns chopes, a Jardineira; descerá o malho nos sambas de enredo acelerados, evocando um lalalaiá do velho Silas de Oliveira; e procurará, com a leve desesperança dos pierrôs tristes, algum bloquinho de rua vagabundo, com suas fanfarras desafinadas, ciganas desvalidas, colombinas assanhadas e ébrios faraós, onde possa experimentar a pequena morte de três dias; aquela que torna suportável o intervalo entre um carnaval e outro.

Evoé! (via Facebook, texto de 2012)