7.2.18

DE NELSON RUFINO PARA JORGE AMADO [CD]; O CARNAVAL CARIOCA E AS CULTURAS DE RUA

LUIZ ANTONIO SIMAS -


Para um sujeito como eu - que fui um adolescente com certa preguiça para os livros mais densos, falta de vocação para a política formal e formação intelectual pouco sistemática, confusa, passional e um tanto destrambelhada - Jorge Amado foi o fabulador que despertou o gosto pela leitura, o respeito delirante pela arraia miúda e uma atração furiosa e mítica pela vagabundagem romanceada. Ao ler e amar a literatura de Jorge descobri, paradoxalmente, que gosto mais de gente do que de livros e sou capaz de trocar qualquer estudo por uma tarde entre cervejas e amigos no mais furreco dos botequins. Por isso, sobretudo por isso, agradeço e bato cabeça, com a crença no encantamento dos homens no mistério, ao sujeito que dessacralizou os livros que leio e consagrou as esquinas que piso. Peço, por isso, que as amizades pulem logo para 40 minutos e 50 segundos deste vídeo. A faixa é Amado, Jorge Amado, samba-enredo que Nelson Rufino e Roberto Ribeiro (que dupla!) fizeram para o Império Serrano em 1989. O samba perdeu (o que ganhou é bom pacas), mas me comove - saravá, poeta - feito o diabo.

PS: o CD inteiro é uma beleza.


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Respondendo a uma pergunta sobre o caminho que considero interessante para estudar o carnaval carioca e as culturas de rua:

"Há que arregaçar a bagaça toda, terreirizando, caboclando, canjirando, percebendo que o sabichão morto das europas talvez não seja capaz de sugerir conceitos para entender a nossa circunstância brasileira, carioca, fodida, que se comparem como mirada de entendimento ao saber do catimbozeiro encantado, da passista, do tocador do surdo de terceira ou do tocador de boiada de uma gira de lei na Fazenda Botafogo. O carnaval, inscrito na História, foi nessa cidade um ato maior da retomada da existência como exercício de descacetamento, empreendimento da vida como canjira e potência transformadora e corajosa de um mundo de merda." (via facebook)