10.2.18

O POVO LIVRE DO AÇOITE DA SENZALA, MAS PRESO NA MISÉRIA NEOLIBERAL TENTA ANIMAR O CARNAVAL DE 2018 [VÍDEO]

ANDRÉ MOREAU -


As fantasias de maior destaque no Carnaval de 2018, pertencem aos oligarcas que comandam o desmonte do Estado brasileiro através dos “informantes não oficiais” dos veículos de comunicação conservadores, aqueles que, para defender o emprego, distorcem informações para agradar a comissão de frente do sistema liberal imposto, sem a menor cerimônia: o PSDB; o Fundo Monetário Internacional (FMI) e; o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD). Além dos porta bandeiras: do parlamento e do judiciário.

A mais recente fantasia foi divulgada em O Globo (10) com um pouco mais de destaque do que os blocos que cantaram a marchinha “Se votar, não volta!”, avisando aos vendilhões que se votarem na reforma da Previdência, não voltam para o Congresso Nacional, ou seja, uma notinha de canto de página ressaltando o “bônus de energia limpa”.

O texto intitulado “Projeto libera compra de terra por estrangeiro”, esconde outra grande sujeira desse governo ilegítimo: o loteamento de terras para estrangeiros com a chancela do Ministério de Minas e Energia (MME), que pretende acabar com limites legais para vender ou arrendar terrenos rurais aos estrangeiros dispostos a “investir” em projetos de energia elétrica.

A jogada tenta esconder dos incautos, a entrega das terras brasileiras -, encobrindo o golpe com o argumento da importância de repassarmos terras brasileiras para estrangeiros “investirem” em geração e distribuição de energia limpa. A nota que antecipa como o projeto deve ser votado no Congresso Nacional, destaca a opinião de Paulo Pedrosa do MME enfatizando que “para investimentos” em energia limpa “(...) não deveriam haver esse tipo de restrição, porque ela diminui a competição. Isso prejudica os consumidores”.

Os desmontes avançam ao mesmo tempo em que o Brasil é transformado em um campo de concentração a céu aberto, que tem como feitores, filhos e netos dos senhores de engenho das capitanias hereditárias, a serviço do FMI e do BIRD, deixando sem graça qualquer crítica menor feita por foliões que desfilaram nos 75 blocos pelas ruas do Rio de Janeiro (10).

Marchinha "Se votar, não volta" dá recado a parlamentares


Quem protestou contra o governo ilegítimo, não teve destaque nos noticiários.

Os mais pobres desceram das favelas, como membros da classe média, mas carregando tambores, pandeiros, cavaquinhos, reco-reco e se encontraram com ex-vizinhos que não conseguiram segurar o tranco dos altos preços dos alimentos, do gás de cozinha, das passagens de ônibus, do aluguel de barracos e se tornaram sem-teto, para alimentar seus filhos.

O caminhão de som já estava estacionado próximo a adega da Rua Mem de Sá, esquina da movimentada Miguel de Frias, em Icaraí - Zona Sul de Niterói. Os técnicos de som desenrolaram os cabos com a ajuda de um sem-teto que mostrou habilidade em testar a entrada de energia alternada, etc. Os últimos ajustes nos microfones, foram feitos anunciando o começo da folia aos transeuntes e moradores que ainda dormiam.

Os “patrões” - título dada pelos mais pobres aos moradores da Zona Sul que tem bons empregos, geladeiras cheias, filhos matriculados em universidades públicas, ou seja, membros da sonhada classe média - chegaram cedo à adega vestindo camisas de escolas de samba tradicionais, alguns direto do Sambódromo, se gabando por terem beijado muitas mulheres e da disposição em caminhar do Estácio, até as barcas e das barcas, até a adega.

Os puxadores de samba abriram uma garrafa de conhaque e soltaram as vozes com a marchinha “Se votar, não volta!”. O clima passou dos 40° na ensolarada esquina, quando o momento de maior empolgação, principalmente para os sem-teto, se aproximava: o almoço. A chegada dos sem-teto foi contida pelos patrocinadores do evento e alguns dos que voltaram do Rio, naturalmente por terem apoiado o golpe de 2016.

Ficou decidido que o eletricista levaria comida para todos os outros que habitam as ruas próximas. Às 12 horas o dono da adega anunciou que o almoço seria servido. Silêncio na Zona Sul de Niterói. O clima no lado de fora da adega, era de corda no pescoço.

Algumas quentinhas foram doada aos sem-teto. Entre vorazes garfada alguém disparou em alto e bom som: “Vou matar esse frango em sua homenagem, Cristiane mico Brasil”.

O puxador de samba mais velho levantou o copo de cerveja e prepôs um brinde aos deputados do PC do B Orlando Silva e Leci Brandão, por terem conseguido na justiça, proibir o desfile do Bloco “Porão do Dops” de São Paulo, que se auto-intitula o “maior anti-comunista do país”.

O aposentado do estaleiro Mauá que havia tentado arrumar emprego em São Paulo, pegou o gancho da conversa e lembrou: “o ponto G da Greve, será desencadeado pelos Metalúrgicos do ABC. Vamos nos unir a greve contra a “reforma” da Previdência, um dia antes da data de votação da proposta na Câmara (19).”

Poucos participaram da conversa. A maioria dos foliões retomaram suas posições, mas a animação deu lugar a catarse de um dos verde/amarelo que batendo com uma colher na frigideira, saiu em defesa da campanha anticorrupção, exaltando como melhorias a retomada das atividades no Complexo Petroquímico do Estado do Rio de Janeiro (Comperj), mas sem falar que agora os “patrões” não seriam mais brasileiros e sim os chineses da Shandong Kerui Petroleum.

Os músicos receberam seus pagamentos, relembraram antigas marchinhas e depois o bloco se desfez, a maioria foi para a Praia de Icaraí, outros seguiram pela Marques do Paraná, para o Centro e no final do dia retornaram às favelas.

O que me fez lembrar dos versos de um samba enredo de outros carnavais: “(...) livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela”.

* André Moreau, é Professor, Jornalista, Cineasta, Coordenador-Geral da Pastoral de Inclusão dos "D" Eficientes nas Artes (Pastoral IDEA), Diretor do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê - Canal Universitário de Niterói e Coordenador da Chapa Villa-Lobos - ABI - Associação Brasileira de imprensa, arbitrariamente impedida de concorrer à direção nas eleições de 2016/2019.