20.2.18

O QUE ESTÁ POR DETRÁS DO ANÚNCIO DA INTERVENÇÃO FEDERAL NA SEGURANÇA DO RIO

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -


O presidente golpista Michel Temer procura de todas as formas reverter a rejeição dos brasileiros ao seu governo ilegítimo. É por aí que se pode começar a entender o motivo real da decretação da intervenção federal na área de segurança pública no Estado do Rio de Janeiro, por sinal, uma área da federação governada pela mesma quadrilha do PMDB que a de Michel Temer.

Desgastado com o mercado porque não conseguiria aprovar a contra reforma da Previdência, o lesa pátria Temer decidiu, com a ajuda do próprio governador Pezão, também totalmente desgastado, adotar a medida extrema e que na prática não resolverá absolutamente nada podendo até agravar o quadro de violência. E como o Rio de Janeiro chegou a essa situação? Tendo como governantes Luis Fernando Pezão em âmbito estadual e Marcelo Crivela no município, o que se poderia esperar?

Crivela, vale lembrar, aproveitou a “folguinha” do Carnaval para viajar para a Europa e na Alemanha fez uma visita particular a uma empresa, mas afirmando que fazia uma visita oficial. Prefeito mentiroso mandou vídeos dizendo que estava “trabalhando” em favor da segurança do Rio. Voltou a tempo de estar presente na vinda de Temer em reunião com Pezão na sede do governo do Estado do Rio de Janeiro, em um espetáculo vergonhoso.

Mas o que está acontecendo no Rio precisa ser melhor analisado. Há muito tempo o Rio vive uma situação trágica e o governador Pezão pouco antes do início do Carnaval havia anunciado um plano de emergência na área de segurança, que acabou não sendo executado. Para talvez disfarçar ele admitiu que falhou, quando na verdade até mentiu.

O Rio de Janeiro ficou então sem nenhum tipo de policiamento, tendo a Zona Sul carioca entrado em foco, com imagens repetidas com muita constância pelas mídias comerciais, sobretudo pela Rede Globo.

Estranhamente um supermercado foi saqueado, quando até os postes do Rio de Janeiro sabem que a maioria desses estabelecimentos são vigiados por seguranças. Mas por ocasião do saque, o referido supermercado situado no bairro do Leblon estava sem os tais seguranças. Em seguida ao saque eles estavam em seus postos e foram mostrados pelos canais de televisão. Como pode ser interpretado o fato, ainda por cima com imagens do saque propriamente dito?

Diante dessas imagens, para muitos montadas ou pelo menos facilitadas pelo próprio Governo Pezão, Temer aproveitou o embalo para anunciar o decreto de intervenção federal na área de segurança, com o apoio do seu correligionário do PMDB, Luiz Fernando Pezão, um governador que está muito contente, pois continua solto e ocupando o cargo, de onde já deveria ter sido afastado.

O comandante militar da região Leste, Braga Netto, foi então convocado para assumir a área de segurança do Rio de Janeiro, como se o que está acontecendo se resolva com o Exército assumindo essa função. Temer na verdade, vale sempre repetir, com a ajuda do correligionário Pezão, fez “marketing”, ou seja, jogou para a platéia, como se tivesse encontrado a solução. O seu anúncio com estardalhaço é uma demonstração concreta de que o lesa pátria só entende que com um general comandando a área de segurança e as tropas na rua o problema será solucionado.

Apoios sintomáticos

Mais uma vez a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro e o jornal O Globo aplaudiram a medida, sendo que o editorial do jornal da família Marinho ainda defendeu uma ação mais prolongada do que a anunciada até o fim de um governo que na prática já chegou ao fim.

Na cerimônia trágica do anúncio da intervenção ainda apareceu o ministro Moreira Franco que já governou o Estado do Rio no final dos anos 80 e prometeu então acabar com a violência em seis meses. Não cumpriu a promessa, muito pelo contrário.

O governo do lesa pátria Temer bem como os seus aliados, muitos deles acusados de práticas corruptas, acham que as Forças Armadas acabarão com a violência no Rio. Não vão e como tem acontecido toda vez que seus contingentes são acionados a violência se intensifica com o cerco militar em áreas carentes da cidade do Rio de Janeiro.

A única diferença agora é que o comando das operações não será mais dos agentes nomeados por Pezão, mas sim pelo próprio lesa pátria Michel Temer, que, com o claro objetivo de dar uma satisfação ao mercado em face da impossibilidade de aprovar a contra reforma da Previdência, decidiu fazer o anúncio com grande estardalhaço, talvez enganando um número reduzido de incautos. O governo golpista então mudou de foco da contra reforma da Previdência para a segurança.

É bastante sintomático nessa história toda, o fato de tanto o lesa pátria Temer como seus correligionários do PMDB e demais partidos aliados simplesmente ignorarem as verdadeiras causas do atual estado de coisas, ou seja, as condições de vida da maioria da população brasileira, que se deteriora a olhos vistos desde ascensão golpista da patota em maio de 2016.

Temer e os seus correligionários deixam claro que a única saída para a crise que enfrenta o Rio de Janeiro é colocar as tropas nas ruas, o que, por sinal, vem acontecendo há muito tempo sem nenhum resultado concreto. Essa patota não se importa com a violência policial e militar que ocorre nas favelas do Rio quando as tropas e seus comandantes, sejam estaduais ou federais, pouco se importam se as moradias dos cidadãos pobres estão sofrendo violência. Não passa pela cabeça do lesa pátria Temer e muito menos dos representantes da Federação das Indústrias e outros grupos do gênero estancar esse tipo de violência. O que se pode esperar desses setores que levam adiante um projeto como o da “ponte para o futuro”, que, vale sempre repetir, faz o Brasil andar para trás e também é responsável pelo agravamento das condições de vida da maioria do povo brasileiro, inclusive o do retorno do país ao mapa da fome.

Temer na verdade pretende ser reconhecido pela opinião pública, o que é impossível, pois seu tempo já se esgotou, mesmo que permaneça no governo até 31 de dezembro próximo. Ou será que com a mudança de foco para a questão da segurança ele pretende se apresentar como candidato à Presidência, como andam assinalando alguns colunistas de sempre?

Aliás, vale assinalar, o notório colunista de sempre Merval Pereira mencionou a ação dos militares brasileiros no Haiti para concluir que eles aprenderam a lição e poderão aproveitá-la por aqui com a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro anunciada.

E assim caminha para trás o Brasil sob o comando da patota golpista que quer de todas as formas fazer o jogo do mercado.

O noticiário sobre venezuelanos no Estado de Roraima

Em tempo, antes do estardalhaço do anúncio de Temer, o mesmo tentou de todas as formas aproveitar o deslocamento de venezuelanos para o Brasil, sem que fosse explicado com precisão o verdadeiro motivo do que está acontecendo no Estado de Roraima. A explicação, repetida inúmeras vezes pela mídia comercial, é apenas a deterioração das condições de vida no país vizinho, mas sem se entrar em detalhes sobre o motivo pelo qual os venezuelanos decidiram vir para o Brasil em busca de melhores condições de vida, exatamente em um país cujo governo não dá conta de melhorar as condições de vida do seu próprio povo. Não se aprofundou também se os venezuelanos estão sendo estimulados nesse sentido.

Quanto ao número exato de venezuelanos no Brasil seguem as dúvidas, porque esse número algumas vezes é anunciado pela mídia comercial em 40 mil e em outras muito menos do que a metade.

Resta aguardar os acontecimentos no Estado de Roraima e também acompanhar por outras fontes, além da mídia comercial, o que está acontecendo na Venezuela, cujo governo diariamente vem sendo apresentado pelo governo norte-americano de Donald Trump, como se fosse uma ditadura. O mesmo governo Trump que não esconde o interesse em dominar totalmente as riquezas petrolíferas venezuelanas e que se vale de figuras como Michel Temer para conseguir atingir esse objetivo.

Mário Augusto Jakobskind, é Professor, Jornalista, Escritor, vice-presidente na Chapa Villa-Lobos, arbitrariamente impedida de concorrer à direção da ABI (2016/2019) e Coordenador de História do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê - Canal Universitário de Niterói.