19.3.18

A RECEITA DA UNIDADE DA REVOLUÇÃO DO “ALECRIM”

MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND -


O sociólogo português Boaventura Sousa Santos (foto) é um intelectual português conhecido mundialmente e que dispensa apresentação. Ele participou de vários debates no Fórum Social Mundial e o destaque fica por conta de sua pregação em favor da democracia e da unidade das esquerdas.

Nesse sentido ele explicou com detalhes a experiência que se desenvolve em Portugal, onde as esquerdas se uniram para fazer frente ao neoliberalismo, que era colocado pelos anteriores detentores do governo como a única solução para o país.

Os defensores desse modelo, segundo Boaventura, advertiam que fora do modelo neoliberal Portugal naufragaria. Mas a unidade das esquerdas, do Partido Socialista, Bloco de Esquerda e Partido Comunista demonstraram na prática que um outro modelo seria possível. E foi. Tanto assim que a política de governo colocada em prática produziu um crescimento econômico e o aumento dos empregos. Caiu por terra a mentira neoliberal que indicava que Portugal naufragaria se não levasse adiante o projeto abençoado pelo mundo financeiro e que provoca grandes males aos trabalhadores.

Portugal hoje é o único país da Europa que cresceu e aumentou o número de empregos em menos de três anos com a unidade das esquerdas.

E para alcançar isso os partidos colocaram como meta principal uma resposta ao neoliberalismo. Deixaram de lado eventuais divergências tendo em vista o inimigo principal, o capital financeiro.

A receita da unidade é simples. Diálogo e prática de favorecer a maioria do povo e não a minoria vinculada ao capital financeiro.

A denominada por Boaventura de Souza Santos “revolução do alecrim” em Portugal só foi possível porque as esquerdas decidiram colocar como fator principal os interesses do povo e deixar de lado suas eventuais divergências.

Para alcançar isso, é necessário ter uma leitura aprofundada do momento atual e a receita vale para qualquer país. Boaventura enfatizou que no caso brasileiro a unidade é mais do que necessária, porque o país vive um momento de retrocesso absoluto em que a mesma receita defendida pelos governos portugueses anteriores ao atual está sendo defendida como a única forma de o país se desenvolver. Uma mentira, por sinal, defendida pelos meios de comunicação comerciais.

Mas para tanto é necessário, vale sempre repetir, muita maturidade das esquerdas.

Resta, portanto, saber se os protagonistas brasileiros estariam mesmo dispostos a repetir no país a receita da “revolução portuguesa do alecrim”, claro, adaptada a realidade que atravessa o país.

Em relação a edição do Fórum Social Mundial de 2018 realizado em Salvador vale também mencionar as homenagens dos movimentos sociais à vereadora Mariella Franco, assassinada no Rio de Janeiro pela banda podre do esquema de segurança do Rio de Janeiro; Um crime hediondo que repercutiu nacional e internacionalmente e que os militares que assumiram o comando da segurança do Rio de Janeiro têm a obrigação de apontar os culpados e que não podem ser contemplados com a impunidade.

Para os que comentam que o crime hediondo de alguma forma remete ao episódio do Riocentro, no governo do último general de plantão, João Batista Figueiredo, vale lembrar também que inicialmente os detentores do poder tentaram esconder os responsáveis pelo atentado, mas os fatos demonstraram que o inquérito inicial tinha apenas o objetivo de conseguir a impunidade dos criminosos. A história, claro, não pode se repetir. Se isso por acaso acontecer, as consequências serão muito, mas muito graves, maior até do que representou o lamentável episódio do atentado do Riocentro que na prática acabou com o governo do último general de plantão da ditadura de 1964.

Mário Augusto Jakobskind, é Professor, Jornalista, Escritor, vice-presidente na Chapa Villa-Lobos, arbitrariamente impedida de concorrer à direção da ABI (2016/2019) e Coordenador de História do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê - Canal Universitário de Niterói.