20.3.18

OS ABUTRES NÃO DORMEM

ANDRÉ MOREAU -


O fato que provocou a recusa de policiais militares em baterem continência ao comandante da intervenção, em recente inspeção, revela o desagrado de setores da Polícia Militar (PM) com a intervenção no Rio. A insatisfação cresce com o aumento de imposições como, por exemplo, a revisão do organograma de funcionamento da corporação, incluindo a escala de serviço dos PMs, sem consulta prévia aos afetados, já que os mesmos como complementação salarial exercem funções na segurança privada.

Vendo a água entrar no barco verde/amarelo, a burguesia rasgou seda ao tratar do legado da Vereadora Marielle Franco (Psol), lembrando sua atuação na defesa de policiais militares (PMs), dentre outros excluídos, mas nos jornalões (18), jogou água fria na fervura:

“Sectarizar a morte de Marielle é um desserviço”, anunciou o editorial do mais reacionário jornal do País: O Globo. O Estado de São Paulo e a Folha de São Paulo seguiram a mesma linha, na tentativa de desfazer a mancha da execução e criticar o raciocínio lógico que liga o crime a todas as ações golpistas em curso desde o impeachment, sem mérito.

O assassinato da Vereadora Marielle Franco, além de assustar setores da classe média, despertou a atenção dos mais pobres, para a seguinte questão: Marielle foi assassinada porque lutava contra o aumento da repressão na periferia, depois da intervenção militar, denunciando a atuação de agentes do “Batalhão da morte” - o 41º Batalhão de Polícia Militar.

O crime praticado contra Mariela Franco se liga a implantação de dispositivos “legais”, que ameaçam a Constituição de 1988, impostas por setores do judiciário que vem negociando em Washington, estatais e riquezas naturais, ressalvados os impactos sociais.

Dizer que a execução da Vereadora Marillena Franco, não foi um crime político da narrativa de mudança do sistema de governo, na melhor das hipóteses, trata-se de uma ignorância semelhante a que divide os partidos políticos, no momento em que o Povo mais precisa de uma frente ampla que venha conter os efeitos do golpe de estado.

Os indícios que apontam para o esquadrão da morte paulista são fortes. Além de relacionar à chacina de Osasco, praticada com munição oriunda da Polícia Federal, se liga a narrativa de ódio que condena os investimentos públicos que favoreciam os mais pobres como se fossem “gastos”.

Diante desse quadro a maioria dos setores de esquerda, distantes da realidade do Povo, parecem não conseguir elaborar que o fato do assassinato de Marielle Franco, passou a ser usado visando sufocar qualquer forma de protesto sob o argumento “anti-crime organizado”.

O Psol demonstra dificuldade em reagir com a firmeza necessária diante desse tipo de choque, que aponta para o fato do crime ser político e de extrema direita. O namoro dos seus integrantes com editores da narrativa de ódio, em meio aos citados retrocessos, é tão absurdo quanto a idéia de tirar o crime do contexto golpista, acirrado em 2013, no JN das Organizações Globo.

O ponto em que chegamos exige dos políticos eleitos, mobilizações firmes contra assassinatos sistemáticos, sob o argumento “anti-crime organizado”, informando que o crime organizado é praticado por 1% da população que vive como sangue suga dos mais pobres e lava o dinheiro sujo em CC5 dos paraísos fiscais controlados pelos EUA, Inglaterra, França e Alemanha.

Esclarecer o crime praticado contra Marielle, com a exibição de um, ou outro “boi de piranha”, do ponto de vista político, só servirá para reforçar o esquema da intervenção em meio aos incautos, como planejam os autores da narrativa de ódio em curso.

Afinal que “slogan” seria mais forte em momentos como esse, do que: vamos prender os culpados em 24 horas?

O movimento social não pode se pautar no circo e esperar que a burocracia do estado apresente outra fase do esquema que vem depredando o país e, sem o pão.

Quantos assassinos da chacina de Osasco foram presos?

Paralelamente a Presidente Carmem Lúcia transformou o Supremo Tribunal Federal, em um departamento político das Organizações Globo, garantindo o sucesso da “operação” com o impasse que impõe a modificação da cláusula pétrea que possibilita condenação em segunda instância. O mais extraordinário é que o PT, no plano de luta, fala em vigília no lugar de greve geral.

Para piorar o quadro, os mais afoitos petistas falam em virar a página do golpe de estado, ou seja, vamos deixar Lula ser preso, com base na “Teoria do Domínio do Fato”, em nome do resultado eleitoral, enquanto milhares de trabalhadores são demitidos. Como o trabalhador vira a página do desmonte da CLT?

E os Correios?

Empresa florescente no Brasil, modelo de serviço de correspondência no mundo inteiro, vem sendo desmontado com base em farsas insufladas pelos meios de comunicação conservadores, para ser privatizada, assim como a Rede Ferroviária Federal foi desmontada e privatizada no governo de FHC.

Em meio a onda de demissões nos Correios, o TST já decidiu que os trabalhadores terão que pagar pelos planos de saúde, abrindo de vez as porteiras para os abutres, especuladores que vivem de privatizações.

*André Moreau, é Professor, Jornalista, Cineasta, Coordenador-Geral da Pastoral de Inclusão dos "D" Eficientes nas Artes (Pastoral IDEA), Diretor do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê – Canal Universitário de Niterói e Coordenador da Chapa Villa-Lobos – ABI – Associação Brasileira de imprensa, arbitrariamente impedida de concorrer à direção nas eleições de 2016/2019.