22.4.18

NELSON TORNOU POSSÍVEL O SONHO DE UM CINEMA BRASILEIRO

ALCYR CAVALCANTI -

"Quem tem mais razão para brigar, tem mais razão para vencer"
(Nelson Pereira dos Santos - Rio 40 graus).

Nelson Pereira dos Santos foi um humanista, sempre procurou realizar seu ofício como uma forma de fazer do Brasil um país melhor, de fazer de seu planeta um mundo melhor. Paulista, mas carioca de coração foi quando jovem formado nos quadros do PCB, assim como muitos intelectuais de sua época. A querida jornalista Helena Salém escreveu um livro sobre Nelson com o subtítulo "O Sonho Possível do Cinema Brasileiro", uma obra imperdível para quem deseja conhecer as dificuldades no processo de criação do cinema brasileiro.

Nascido em outubro de 1928, partiu agora, em abril de 2018, com a aura da imortalidade conferida aos escritores, pela sua capacidade de sua clara linguagem através de imagens foi convidado para ocupar a cadeira de Castro Alves na Academia Brasileira de Letras-ABL.  Nelson desde menino era um devorador de livros, o que acabou por conduzi-lo a um grupo de estudantes do Partido Comunista, foi quando conheceu Laurita Sant'Anna com quem se casou e teve filhos.

Photo by Alcyr Cavalcanti, all rights reserved
Era a época de Prestes, Jorge Amado, Alvaro Moreyra, Portinari, Niemeyer e muitos outros intelectuais e Nelson entra para a Faculdade de Direito. Em 1948 ingressa no curso de Sociologia e Política que cursaria durante um tempo, mas sua atração pelas telas o levam ao cinema e sua inclinação pela literatura o levam ao jornalismo. São Paulo fervia culturalmente e a sua sólida formação cultural se deve à influência dos intelectuais desta época.

O começo de Nelson no cinema se deve á sua amizade com Rodolfo Nanni que fez curso de cinema em Paris, quando passou uns anos na França.  Passa a sofrer forte influência do cineasta Joris Ivens que era considerado um dos melhores documentaristas do mundo que procurava expressar em seus filmes a "luta dos homens por um mundo melhor". Nelson volta para o Brasil e passa a se reunir com companheiros do Partido, Mario Gruber, Ruy Santos, Artur Neves e formam uma biblioteca de livros marxistas.

Na época São Paulo procura fazer um cinema de moldes hollywoodianos e começa a Vera Cruz, mas Nelson e seu grupo sob a influência do neo realismo italiano pensam em um cinema voltado para os problemas do cotidiano dos desfavorecidos,e vem seu primeiro grande filme "Rio 40 Graus"(1956 ) e seu primeiro problema com a censura. Para Nelson "o cinema tinha que mostrar a realidade e encontrar uma solução para o futuro". A ideia de fazer um filme "do povo" não foi muito simpática ao núcleo dirigente do Partido mas mesmo assim resolveu ir adiante. Reuniam-se em pequeno apartamento (uma célula) por meio de um amigo e companheiro de Partido, Franz Justo Acker. na Praça Cruz Vermelha e corriam atrás do dinheiro. Conseguiu para a fotografia o melhor de sua época, Hélio Silva que conseguiu uma câmera profissional emprestada por Humberto Mauro e a trilha sonora por Zé Keti que depois ficaria famosa principalmente "A Voz do Morro". O filme desagradou a censura que tentou impedir de todas as formas e "porque na cidade nunca se fazia 40 graus e a temperatura girava em torno dos 30 graus". A primeira exibição do filme foi para um público que lotou o auditório da ABI. Começaram a surgir manifestos contra a proibição, não só no Brasil mas também no exterior principalmente por um grupo de intelectuais franceses. Em 1956 depois da liberação o filme foi lançado em várias capitais com muito sucesso.

A partir de seu primeiro filme como diretor e da superação das dificuldades vieram muitos outros como Rio Zona Norte, Boca de Ouro,seu maior sucesso Vidas Secas, Como era Gostoso meu Francês, O Amuleto de Ogum e seu último filme sobre Tom Jobim.

A perda de Nelson foi enorme não só para o cinema brasileiro, mas principalmente para o cinema mundial. Conheci Nelson durante as filmagens do "Como era Gostoso" em 1970 em Paraty e nas filmagens em Mamcucaba onde fizeram uma aldeia onde o "francês" Arduíno Colassanti iria ser canibalizado sob os cuidados da bela nativa Ana Maria Magalhães. Tive algumas facilidades (e também dificuldades) para acompanhar as filmagens dos nativos "ao natural", como vieram ao mundo, havia uma recomendação, não uma proibição de não fazer fotografias, mas devido a muita argumentação e a interseção do assistente de direção, meu amigo Carlos Alberto Camuyrano e de um pedido de um de seus filhos Nelsinho, pude registrar algumas cenas.

Nelson partiu mas deixou um legado para todos os brasileiros que sonham com um Brasil melhor, com um mundo mais justo.

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