3.4.18

NEM TODOS OS BERROS DO TITE PODEM RELANÇAR A ECONOMIA

JOSÉ CARLOS DE ASSIS -


Assistir ao Tite na televisão dando berros para estimular a seleção brasileira, de forma a confundir esses berros de animação com o estímulo ao país para celebrar a superação da crise, é um insulto conjunto aos torcedores e aos cidadãos. Pura manipulação e truques técnicos criminosos de efeitos subliminares. Os mais velhos já viram isto. No tempo do “Brasil, eu te amo”, da ditadura militar, os sucessos da seleção brasileira foram usados para encobrir o que acontecia nos porões da tortura e na esfera dos assassinatos políticos.

Ou Tite é um oportunista, ou um ignorante. Obviamente que nem todo mundo que é convidado para encenar uma personagem de comercial precisa entender totalmente de seu conteúdo. Por isso, prefiro que ele seja um oportunista ignorante. Não sabe, por exemplo, que não há o menor sinal de recuperação da economia brasileira. É que depois de dois anos seguidos de contração e de um leve suspiro em 2017, o produto interno bruto voltou a cair neste início do ano. O desemprego subiu de novo. É um dos mais altos de nossa história.

Entretanto, Tite não deve saber nada disso. Está concentrado na seleção. Deve ter tirado uma rápida folga para fazer o anúncio e provavelmente achou que estava fazendo isso em benefício do país. Os bandidos que estão em volta do presidente certamente não o incomodam. As duas denúncias contra o Presidente engavetadas pela Câmara provavelmente não chegaram a seu conhecimento. A terceira que vem aí é irrelevante, pois a maioria parlamentar já foi devidamente cooptada por Temer com cargos, ministérios, emendas parlamentares e participação em publicidade.

Ninguém pode culpar Tite por ter recebido, provavelmente, um excelente cachê pela participação na publicidade do Itaú e do Agro, veiculada pela tevê Globo (e talvez outras emissoras). O que é o Itaú? É um dos principais representantes da banca brasileira, que tortura o país com as taxas de juros mais altas do mundo. E que é o Agro? Os maiores beneficiários de um sistema de tributação que privilegia os grandes produtores rurais, e que se colocam na situação de extrema exploração dos trabalhadores agrícolas propondo inclusive condições de trabalho escravo no país.

Não só isso. Bancos, o grande agro e o sistema de comunicação, coordenados por este último, comandam o processo social regressivo que está por trás das chamadas “reformas” do Governo Temer, sintetizadas na infame “Ponte para o futuro” proposta por Moreira Franco. É uma aliança entreguista, que vem desestruturando a industrialização brasileira e viabilizando o mais radical processo de desnacionalização do país, que vai desde o retalhamento para privatização parcial da Petrobrás à tentativa de privatização do setor elétrico.

A associação escancarada na publicidade deste governo espúrio com a Seleção Brasileira deve ser entendida com cautela pela população. Como Itaú, Agro e tevê Globo não podem mudar o destino de uma economia que não tem como retomar o crescimento pelo simples fato de que a política econômica deliberada de Meirelles não deixa, reservemos nossas torcidas pela Seleção. Na verdade, se ela tem chance de ganhar a Copa, não é por causa dos berros do Tite. É por competência, e deverá ser saudada por isso. Quanto à economia, continuará sem rumo!