21.4.18

OS VIRA-LATAS SEGUEM DE JOELHOS ATRÁS DAS MIGALHAS DO IMPÉRIO

ANDRÉ MOREAU -


Os impactos da herança de crimes, seqüestros, torturas, desaparecimentos e assassinatos, da ditadura empresarial/militar deflagrada em 1º de abril de 1964 revisitada através dos 14 curtas-metragem da narrativa de preparação do golpe de estado, para “defender a nação da ameaça comunista”, elaborada sob a direção do Sr. Irineu Marinho, que dirigiu o Departamento de Propaganda e Cinema do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (1962-1964), são sentidos, até hoje. 

Essa que foi a mais longa ditadura empresarial/militar da América Latina, desmontou o ensino organizado em turmas que cumpriam coletivamente o ano letivo, com os Atos Institucionais, amparados pelo clima de justiçamento da ditadura. 

A preparação do golpe de 64 lembra a narrativa de ódio acirrada a partir de 2013, visando derrubar a Presidenta Dilma Rousseff, para novamente mergulhar a nação na insegurança jurídica, no clima de medo e individualismo que colocou estudantes do ensino médio e universitário, uns, contra os outros. 


A fragmentação da estrutura curricular de ensino, implantada a partir do AI 5, gerou um dos impactos que nos permitem entender a nova divisão dos segmentos sociais da classe pobre, usada como massa de manobra no golpe de Estado em curso, que vem atingindo a meta tramada com a narrativa de ódio acirrada a partir de 2013, por editores do Jornal Nacional (JN). 


As armadilhas do sistema liberal que foram implantadas após 1968, com cursos supletivos divididos por semestres, a fragmentação dos cursos universitários, possibilitando cursar matérias em tempos diferentes, discriminando qualquer possibilidade de socialização, acabando com entrosamento dos estudantes, começou a ser desarmada nos governos Lula e Dilma Rousseff. 


A implantação desse método de divisionismo, que hoje volta a provocar a substituição do trabalho em cooperativa - forma laboral eficiente por fixar os trabalhadores em regiões próximas as suas habitações, como a agricultura familiar -, restaurada a partir das economias das mulheres que recebiam o “bolsa família”, pode ser um dos motivos que contribuiu para a deflagração desse golpe de Estado, porque estava possibilitando a socialização dos cidadãos pobres que deixaram o trabalho individual longe das suas residência na periferia, para voltar a se dedicar ao cooperativismo. 


Por outro lado o individualismo ganhava força com a “Teologia da Prosperidade”, ramificada nas periferias - através das seitas que vieram do norte -, vendendo a idéia de que tudo se resolve no plano espiritual, bastando para tal o “filho” ser fiel ao senhor. 


Segundo alguns pastores, cada crente teria os seus problemas resolvidos, desde que pensassem só em si, na família e no senhor, como agem certos empresários, mesmo que em detrimento do bem estar social, o que possibilitaria “progressos” diferenciados de acordo com a quantia dos dízimos.


Paralelamente o “filho” é orientado a defender a campanha de linchamento do Partido dos Trabalhadores (PT), juntamente com todos os partidos de esquerda, seguindo as manipulações dessas seitas, feitas através de horários contratados junto aos concessionários dos veículos de radiodifusão de massas, se somando a narrativa de ódio do JN, com a promoção de incitações, acusando os governos Lula e Dilma de funcionarem com base em uma “(...) quadrilha que se apoderou do Estado brasileiro”.


STF X AP 470

As manipulações dos sentimentos do Povo deram força a essas idéias de individualismo, operadas agora com a eficiente “Teoria de Choques” de Milton Friedman, para mudar o sistema de governo, a partir do desmonte do PT que começa com a implantação da “Teoria do Domínio do Fato” no ordenamento jurídico, na Ação Penal 470. 

A partir do momento em que se aceitou a AP 470 como um processo legal, foi dado o pontapé para o golpe de Estado. Na AP 470 ninguém se levantou para se perguntar de onde vinham as provas e como haviam sido conseguidas. Nenhum “iluminado” questionou ter que aceitar uma teoria alienígena para condenar os “réus”. 

No impeachment, sem mérito, o golpe de estado foi concretizado. Novamente os “sábios” se calaram e os defensores da pátria guardaram as baionetas e camuflaram os tanques. 

As mensagens subliminares da narrativa de ódio indicavam, como na preparação do golpe de 1964, que só assim os membros da classe média poderiam ver “(...) a falta de crédito do mercado, ser superada” e quem sabe, passar para o estágio da riqueza. 

O ódio gerado pela casa grande com a narrativa “anti-corrupção”, dividiu todas as classes sociais que estão abaixo do 1% de ricos. Promotores e juízes foram alçados com paixão por setores da classe média à posição de heróis. Fato que coloca as ações do Supremo Tribunal Federal (STF), no centro dessa “estratégia” de mudança do sistema político. 

Os ministros do STF passaram a tratar os conflitos políticos e sociais, inerentes a diferentes posições ideológicas comuns ao Congresso Nacional, como se fossem oriundos de uma corporação empresarial que estava acima das cláusulas pétreas da Constituição, ignorando a vontade da maioria da população. 

O resultado desse jogo de desequilíbrios de poderes vem colocando o Povo contra os políticos, tentando enfiar na cabeça dos incautos que tudo que é público, é ruim, enquanto o governo ilegítimo promove o desmonte do Estado, entregando nossas riquezas naturais, desestabilizando a soberania nacional, em nome da idéia do parlamentarismo, rejeitado pela população por duas vezes nas urnas, ou do semi-presidencialismo. 

Os choques que marcam o avanço desse processo de injustiças sociais podem ser vistos por qualquer cidadão que queira e a partir de dados do próprio Estado: a) o desemprego subiu 96,2% de 2014 até 2017 e; b) 4,5 milhões de cidadãos, vivem com menos de R$ 2 (dois Reais), por dia, de acordo com levantamento do IBGE. 

Diante das estatísticas, se todos os “marginais, vagabundos, assaltantes e traficantes” quisessem se “regenerar” e procurar um emprego, não haveria lugar disponível para exercerem qualquer atividade laboral.

*André Moreau, é Professor, Jornalista, Cineasta, Coordenador-Geral da Pastoral de Inclusão dos "D" Eficientes nas Artes (Pastoral IDEA), Diretor do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê – Canal Universitário de Niterói e Coordenador da Chapa Villa-Lobos – ABI – Associação Brasileira de imprensa, arbitrariamente impedida de concorrer à direção nas eleições de 2016/2019.